O que foi
O movimento Dadá (Dada) ou Dadaísmo foi uma vanguarda moderna fundada em Zurique, em 1916, por um grupo de escritores e artistas plásticos, dois deles desertores do serviço militar alemão. Originou-se de um grupo composto por artistas como Tristan Tzara, Hans Harp, Richard Hülsenbeck, Marcel Janko, Hugo Ball e Hans Richter que se encontravam em cafés de Zurique. A idéia inicial era a realização de um espetáculo internacional de Cabaré que contava com músicas diversas, recitais de poesia e exposição de obras.
Foi um movimento de negação. Durante a Primeira Guerra Mundial, artistas de várias nacionalidades, exilados na Suíça, eram contrários ao envolvimento dos seus próprios países na guerra. Fundaram um movimento literário para expressar suas decepções em relação a incapacidade da ciências, religião, filosofia que se revelaram pouco eficazes em evitar a destruição da Europa.
Origem da Palavra
A palavra Dada foi descoberta acidentalmente por Hugo Ball e por Tzara Tristan num dicionário alemão-francês. Dada é uma palavra francesa que significa na linguagem infantil "cavalo de pau". sua utilização marca o non-sense ou falta de sentido que pode ter a linguagem (como na língua de um bebê). Para reforçar esta idéia foi criado o mito de que o nome foi escolhido aleatoriamente, abrindo-se uma página de um dicionário e inserindo-se um estilete sobre a mesma. Esse nome escolhido não fazia sentido, assim como a arte que perdera todo o sentido diante da irracionalidade da guerra. Sua proposta é que a arte ficasse solta das amarras racionalistas e fosse apenas o resultado do automatismo psíquico, selecionado e combinando elementos por acaso. Sendo a negação total da cultura, o Dadaísmo defende o absurdo,. Politicamente, firma-se como um protesto contra uma civilização que não conseguiria evitar a guerra.
Principais Características
O Dadaísmo é caracterizado pela oposição a qualquer tipo de equilíbrio, pela combinação de pessimismo irônico e ingenuidade radical, pelo ceticismo absoluto e improvisação. Enfatizou o ilógico, o absurdo, a incoerência, a desordem, o caos. Entretanto, apesar da aparente falta de sentido, o movimento protestava contra a loucura da guerra. Assim, sua principal estratégia era mesmo denunciar e escandalizar. Contrários à burguesia e ao naturalismo, identificado como "a penetração psicológica dos motivos do burguês", buscavam também, a destruição da arte acadêmica e tinham grande admiração pela arte abstrata. A princípio, o movimento não envolveu uma estética específica, mas talvez as formas principais da expressão dadá tenham sido o poema aleatório e o ready made.
Nomes e Cidades onde atuaram
Na Alemanha, nas cidades de Berlim e Colônia, destacam-se os nomes de R. Ruelsenbeck, R.Haussmann, Johannes Baader (1876-1955), John Heartfield (1891-1968), G.Groz e Kurt Schwitters (1887-1948). Em Colônia, Max Ernst (1891-1976) - posteriormente um dos grandes nomes do surrealismo - aparece como um dos principais representantes do dadaísmo. A obra e atuação de Francis Picabia (1879) estabelecem um elo direto entre Europa e Estados Unidos. Catalisador, com Albert Gleizes (1881-1953) e A. Cravan, das expressões dada em Barcelona, onde edita a revista 391, Picabia se associa também ao grupo de Tzara e Arp, em Zurique. Em Nova York, por sua vez, é protagonista do movimento com Marcel Duchamp (1887-1968) e Man Ray (1890-1976).
Popularização
A popularização do dadaísmo se deu, com a inauguração da "Galeria Dada" em 1917 e as revistas "Dada", seguidas de livros sobre o movimento. Sua provocação, ativismo e conceito de simultaneidade (realizar ao mesmo tempo diversas apresentações, como a leitura de poemas distintos) muito deve aos futuristas, entretanto, não possuía o otimismo e a valorização da tecnologia que esse último movimento tinha.
A arte dos dadaístas
Sua provocação, ativismo e conceito de simultaneidade (realizar ao mesmo tempo diversas apresentações, como a leitura de poemas distintos) muito deve aos futuristas, entretanto, não possuía o otimismo e a valorização da tecnologia que esse último movimento tinha.
O dadaísmo costuma ser bastante identificado aos ready-mades de Duchamp, como os urinóis elevados à categoria de obras de arte ou outras proezas do artista, como o acréscimo de bigodes à Mona Lisa.
Os poemas non-sense, as máquinas sem função de Picabia, que zombavam da ciência, ou a produção de quadros com detritos, como Merzbilder, de Schwitters, são outras obras características do dadaísmo.
Além disso, o dadaísmo, desde o começo, pretendia ser um movimento internacional nas artes. Picabia era o artista que acabou por fazer a ponte entre o dadaísmo europeu e o americano, tornando-se, juntamente com Duchamp e Man Ray, uma das principais figuras do dadaísmo forte em Nova York.
A revista "Dada 291" era publicada nessa cidade americana, além de Barcelona e Paris, outras cidades por onde o movimento espalhara-se. Berlim, Colônia e Hanover eram outros importantes focos Dada.
Na Alemanha, o movimento ganhou características mais próximas de protesto social que de movimento artístico.
Influências Posteriores
O dadaísmo forneceu grande inspiração para movimentos posteriores, como o Surrealismo, derivado dele, a Arte Conceitual, o Expressionismo Abstrato e a Pop Art americana.
Trabalhos
· A criação do Cabaré Voltaire, em Zurique, 1916, inaugura oficialmente o dadaísmo. Fundado pelos escritores alemães H. Ball e R. Ruelsenbeck, e pelo pintor e escultor alsaciano Hans Arp (1886-1966), o clube literário - ao mesmo tempo galeria de exposições e sala de teatro - promove encontros dedicados à música, dança, poesia, artes russa e francesa.
· Os ready-made de Duchamp constituem manifestação cabal de um certo espírito que caracterizou o dadaísmo. Ao transformar qualquer objeto escolhido ao acaso em obra de arte, Duchamp realiza uma crítica radical ao sistema da arte. Assim, objetos utilitários sem nenhum valor estético em si são retirados de seus contextos originais e elevados à condição de obra de arte ao ganharem uma assinatura e um espaço de exposições, museu ou galeria. Por exemplo, a roda de bicicleta que encaixada num banco vira Roda de bicicleta (1913), ou um mictório que invertido se apresenta como Fonte (1917), ou ainda os bigodes colocados sobre a Gioconda de Leonardo da Vinci (1452-1519) que fazem dela um ready-made retificado, o L.H.O.O.Q. (1919). Os princípios de subversão mobilizados pelos ready-made podem ser também observados nas máquinas antifuncionais de Picabia e nas imagens fotográficas de Man Ray.
· Embora se tenha espalhado por quase toda a Europa, o movimento Dada tem os núcleos mais importantes em Zurique, Berlim, Colónia e Hanôver. Todos eles defendem a abolição dos critérios estéticos, a destruição da cultura burguesa e da subjetividade expressionista reconhecendo, como caminhos a seguir, a dessacralização da arte e a necessidade do artista ser uma criatura do seu tempo, no entanto, há uma evolução diferenciada nestes quatro núcleos. O núcleo de Zurique, o mais importante durante a guerra, é muito experimentalista e provocatório, embora mais ou menos restrito ao círculo do Cabaret Voltaire. É aqui que surgem duas das mais importantes inovações dadaístas: o poema simultâneo e o poema fonético. O poema simultâneo consiste na recitação simultânea do mesmo poema em várias línguas; o poema fonético, desenvolvido por Ball, é composto unicamente por sons, com predominância de sons vocálicos. Nesta última composição a semântica é completamente posta de parte: já que o mundo não faz sentido para os dadaístas, a linguagem também não terá de fazer. Ball considera ser esta uma época onde « Um universo desmorona-se. Uma cultura milenar desmorona-se.» («A Arte dos Nossos Dias», in Dada-Antologia Bilingue de Textos e Poemas, 1983). Estes tipos de composições, juntamente com o poema visual, também assente em princípios simultaneístas, e a colagem, primeiro utilizada nas artes plásticas, são as grandes inovações formais deste movimento. O grupo de Berlim, mais activo depois da guerra, está profundamente ligado às condições socio-políticas da época. Ao contrário do anterior realiza intervenções politizantes, próximas da extrema esquerda, do anarquismo e da “Proletkult” (cultura do proletariado). Apesar de tudo, os próprios dadaístas têm consciência que são demasiado anarcas para aderir a um partido político e que a responsabilidade pública que daí advinha era inconciliável com o espírito dadaísta. Colónia e Hanover são menos significativos, sendo no entanto de salientar o desenvolvimento da técnica da colagem no primeiro e a inovadora utilização de materiais casuais e subalternos, como jornais e bilhetes de autocarro, na pintura do segundo.
· Hugo Ball fundou a Galeria Dada, inaugurada com a exposição do grupo ligado à revista expressionista A tempestade/Der Sturm. Um movimento independente similar surgiu em Nova Iorque, em 1913, liderado por Marcel Duchamp, Francis Picabia e Man Ray. Em 1918, os dois movimentos se cruzaram quando Picabia foi a Suíça. Após o fim da guerra, o Dada se irradiou na Alemanha com artistas como Max Ernst (fundador do clube Dada de Colonia), George Grosz, Jef Golyscheff (clube Dada de Berlim) e Kurt Schwitters (clube Dada de Hannover). Em Paris, entre 1919 e 1922, o Dada foi palco de muitas querelas entre seus membros, acabando por dissolver-se. Seus princípios destrutivos faram modificados gerando o surgimento do Surrealismo em 1924.
Influências
· ARTES PLÁSTICAS – Objetos do cotidiano são retirados de contexto e elevados à categoria de arte com pouca ou nenhuma mudança. Um exemplo dessa forma de arte chamada de ready-made é o mictório que Duchamp intitula Fonte. O ready-made questiona o valor do objeto artístico como mercadoria preciosa e abala a noção de arte consagrada pela sociedade ocidental. Obras de sucata também caracterizam o dadá, como o Merzbau, instalação de objetos agregados, de Kurt Schwitters. Alguns artistas criam de olhos fechados para dar vazão ao automatismo psíquico.
· LITERATURA – Depois do futurismo, o movimento dadá é o que mais produz manifestos. Os textos são um tipo de obra literária. A Primeira Aventura Celeste de M.Antipyrine, uma reunião de palavras sem conexão sintática nem sentido lógico, de Tristan Tzara, introduz a literatura dadá. Entre os autores destacam-se os franceses André Breton (1896-1966) e Louis Aragon (1897-1982), que fundaram depois o surrealismo.
· TEATRO – Sua principal característica é a rebeldia da encenação. Os atores apresentam-se em espaços não convencionais e brincam com a platéia. Os textos são improvisados ou escritos com forte carga poética, algumas vezes sem lógica. O Coração a Gás, de Tristan Tzara, é considerada a peça mais importante.
· DESIGNERS GRÁFICOS - O Dadaismo influiu nos designers gráficos de duas maneiras igualmente importantes: ajudou-os a se libertarem das restrições retilíneas e reforçou a idéia cubista do uso da letra em si mesma como uma experiência visual.
Principais Artistas
Marcel Duchamp (Blainville-Crevon, 28 de julho de 1887 — Neuilly-sur-Seine, 2 de outubro de 1968), pintor e escultor francês, sua arte abriu caminho para movimentos como a pop art e a pop art das décadas de 1950 e 1960. Reinterpretou o cubismo a sua maneira, interessando-se pelo movimento das formas. O experimentalismo e a provocação o conduziram a idéias radicais em arte, antes do surgimento do grupo Dada (Zurique, 1916). Criou os ready-mades, objetos escolhidos ao acaso, e que, após leve intervenção e receberem um título, adquiriam a condição de objeto de arte.Em 1917 foi rejeitado ao enviar a uma mostra um urinol de louça que chamou de "Fonte". Depois fez interferências (pintou bigodes na Mona Lisa, para demonstrar seu desprezo pela arte tradicional), inventou mecanismos ópticos.
É um dos precursores da arte conceitual e introduziu a idéia de ready made como objeto de arte. Irmão de Jacques Villon e Raymond Duchamp-Villon, estes também artistas que gozaram de reputação no cenário artístico europeu, Marcel Duchamp começou sua carreira como artista criando pinturas de inspiração impressionista, expressionista e cubista. Dessa fase, destaca-se o quadro Nu descendo a escada, que apresenta uma sobreposição de figuras de aspecto vagamente humano numa linha descendente, da esquerda para a direita, sugerindo a idéia de um movimento contínuo.
Sua carreira como pintor estendeu-se por mais alguns anos, tendo como produto quadros de inegável valor para a formação da pintura abstrata. É, no entanto, como escultor que Duchamp vai atingir grande fama. Tendo se mudado para Nova York e largado a Europa numa espécie de estagnação criativa, Duchamp encontra na América um solo fértil para sua arte dadaísta. Decorrente dessa fase, e em virtude de seus estudos sobre perspectiva e movimento, nasce o projeto para a obra mais complexa do artista: A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo (ou O grande vidro). Trata-se de duas lâminas de vidro, uma sobre a outra, onde se vê uma figura abstrata na parte de cima, que seria a noiva, inspirada no quadro acima mencionado, e, na parte de baixo, se percebe uma porção de outras figuras (feitas de cabides, tecido e outros materiais), dispostas em círculo, ao lado de uma engrenagem (retirada de um moinho de café). Essa obra consumiu anos inteiros de dedicação de Duchamp, e só veio a público muito depois do início de sua construção, intercalada, portanto, por uma série de obras. Não se tem um consenso acerca do que representa essa obra, mas diversas opiniões conflitantes, com base em psicologismos e biografismos, renderam e ainda rendem bastante discussão.
Além disso, Duchamp é o responsável pelo conceito de ready made, a saber, o trasporte de um elemento da vida cotidiana, a priori não reconhecido como artístico, para o campo das artes. A princípio como uma brincadeira entre seus amigos, entre os quais Francis Picabia e Henry Roché, Duchamp passou a incorporar material de uso comum às suas esculturas. Em vez de trabalhá-los artisticamente, ele simplesmente os considerava prontos e os exibia como obras de arte. A Fonte, obra que fez repercutir o nome de Duchamp ao redor do mundo - especialmente depois de sua morte -, está baseada nesse conceito de ready made: pensada inicialmente por Duchamp (que, para esconder o seu nome, enviou-a com a assinatura "R. Mutt", que se lê ao lado da peça) para figurar entre as obras a serem julgadas para um concurso de arte promovido nos Estados Unidos, a escultura foi rejeitada pelo júri, uma vez que, na avaliação deste, não havia nela nenhum sinal de labor artístico. Com efeito, trata-se de um urinol comum, branco e esmaltado, comprado numa loja de construção e assim mesmo enviado ao júri; entretanto, a despeito do gesto iconoclasta de Duchamp, há quem veja nas formas do urinol uma semelhança com as formas femininas, de modo que se pode ensaiar uma explicação psicanalítica, quando se tem em mente o membro masculino lançando urina sobre a forma feminina.
Os ready made passaram, então, a ser o elemento de destaque da produção de Duchamp. Entre os mais famosos, podemos citar a obra L.H.O.O.Q. (sigla que, lida em francês, assemelha-se ao som da frase "Elle a chaud au cul", que, traduzida para o português, significa "Ela tem fogo no rabo"), que nada mais é do que uma reprodução do célebre quadro de Leonardo Da Vinci, Mona Lisa, acrescida de bigodes e barba.
Além disso, sua obra está vinculada, de algum modo, ao seu modo de vida boêmio, propiciado pelo convívio com pessoas influentes e poderosas no meio artístico norte-americano. Num de seus acessos de iconoclastia e irresponsabilidade, Duchamp lançou na cena artística nova-iorquina a figura de Madame Rrose Sélavy (cujo sobrenome se assemelha à expressão francesa "C'est la vie", ou seja, "É a vida", em português), uma artista dotada de uma ironia profunda, bem como de uma paixão por trocadilhos (evidentemente, aspectos oriundos da personalidade do próprio Duchamp). Ela também assinou uma parte dos ready made, podendo ela mesma ser considerada um ready made duchampiano, na medida em que era uma espécie de transfiguração artística de uma personalidade real do artista. Há, inclusive, uma foto em que Duchamp aparece travestido de Rose Sélavy.
Dedicou-se ao estudo da "quarta dimensão", o que, de alguma forma, orientou a sua criatividade artística para problemas óticos. Os Rotoreliefs, discos coloridos que, quando girados com extrema rapidez, produziam efeitos óticos, é mais uma de suas tentativas de se aproximar das pesquisas que fazia. O estudo do olhar sobre a arte interessou muito a Duchamp, que se opunha àquilo que ele próprio dizia ser a "arte retiniana", ou seja, uma arte que agrada à vista. Pode-se, de certo modo, compreender toda a arte de Duchamp como um esforço para se afastar da "arte retiniana" e passar para uma arte mais "cerebral", em que se ressaltam os aspectos mais intelectuais do labor artístico. Dessa forma, os ready made, inclusive, são uma tentativa de escapar da "arte retiniana", uma vez que confrontam o público, oferecendo-lhes algo que ele próprio já viu algures, forçando-o a pensar e refletir sobre a questão da arte enquanto linguagem.
Vale a pena ressaltar que a obra de Duchamp deixou um legado importante para as experimentações artísticas subseqüentes, tais como o Dadaísmo, o Surrealismo, o Expressionismo Abstrato, a Arte Conceitual, entre outros. Muitos dos artistas identificados com essas tendências prestaram tributo a Duchamp, quando não o conheceram de fato, tendo com ele um contato direto (ou, às vezes, íntimo), o que influenciou as suas respectivas obras. John Cage, por exemplo, trocou idéias com Duchamp, e André Breton, pai do Surrealismo, por várias vezes tentou cooptar Duchamp para a causa do movimento surrealista; Tristan Tzara, um dos responsáveis pelo Dadaísmo, também reconheceu na obra de Duchamp, apesar do pouco contato da arte norte-americana com a arte européia, uma espécie de precursora.
Hans Peter Wilhem Arp (Estrasburgo, 16 de Setembro de 1886 — 7 de Junho de 1966) foi um pintor e poeta alemão, naturalizado francês.
Em 1926 adquiriu a nacionalidade francesa e passou a usar o nome Jean Arp.
O pai de Arp era um empresário de origem alemã, dono de uma fábrica de cigarros e a sua mãe era de origem francesa, motivo pelo qual ele, desde muito cedo, falava fluentemente as duas línguas.
Em 1900 inscreveu-se na Escola de Artes e Ofícios em Estrasburgo, onde nunca chegou a ser bom aluno, pois não se interessava pelas matérias curriculares.
Durante o ano de 1901 teve aulas de desenho com Georges Ritleng.
Arp que era um admirador da poesia alemã, em 1903 publicou algumas obras literárias.
Em 1907 inscreveu-se na Academia Julian.
Em 1911, juntamente com Oscar Lüthy e Walter Helbig, foi o fundador do grupo de artistas suiços, designado por Der Moderne Bund. Em 1912 conhece Kandinsky em Munique, e em 1914 dá-se com August Macke e Max Ernst, em Colónia.
Em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, foi viver para Zurique, em virtude de possuir nacionalidade alemã. Nesse ano casou com Sophie Taeuber, que veio a falecer, em 1943, enquanto ocorria a Segunda Guerra Mundial.
No ano de 1920, Arp participa numa exposição dadaístita, em Colónia, com Baargeld e Max Ernst. Conhece Breton, e colabora em diversas publicações de conteúdo vanguardista, com poemas e collages. Em 1925, Arp junta-se a um grupo de surrealistas saídos do movimento dada, e expõe em Paris.
Versátil na sua obra, a década de 30 é dedicada a trabalhos na perspectiva da abstracção geométrica, collages e grafismos com relevo. Na década seguinte, Arp, sempre em mudança, centra o seu trabalho na escultura.
Em 1959, casou em segundas núpcias com Marguerite Hagenbach.
A sua obra atinge a fama nos anos 50 e 60, quando expõe em Nova Iorque (1958) e Paris (1962).
Tábua para Ovos Hans Arp, 1922.
Francis-Marie Martinez Picabia (Paris, 28 de janeiro de 1879 - id., 30 de novembro de 1953) pintor francês.
Estudou na École des Beaux-Arts e na École des Arts Décoratifs. Recebeu uma forte influência do impressionismo e do fauvismo, em especial de la obra de Picasso e Sisley. De 1909 a 1911 esteve vinculado ao cubismo e foi membro do grupo "Puteaux", onde conheceu os irmãos Duchamp. Em 1913 viajou aos Estados Unidos, onde entrou em contato com o fotógrafo Alfred Stieglitz e o grupo dadá estadounidense. Em Barcelona, publicou o primieiro número de sua revista dadaísta "391" (1916) contando com colaboradores como Apollinaire, Tristan Tzara, Man Ray e Arp. Após passar um período na Costa Azul com uma forte presença surrealista, regressa a París e cria com André Breton a revista "491". Envolveu-se sucessivamente com os principais movimentos estéticos do início do século XX, como cubismo, surrealismo e dadaísmo. Colaborou com Tristan Tzara na revista Dada. Suas primeiras pinturas cubistas, eram mais próximas de Léger do que de Picasso, são exuberantes nas cores e sugerem formas metálicas que se encaixam umas nas outras. Formas e cores tornaram-se a seguir mais discretas, até que por volta de 1916 o artista se concentrou nos engenhos mecânicos do dadaísmo, de índole satírica. Depois de 1927, abandonou a abstração pura que praticara por anos e criou pinturas baseadas na figura humana, com a superposição de formas lineares e transparentes.
Max Ernst (2 de abril de 1891, Brühl, Alemanha — 1 de abril de 1976, Paris) foi um pintor alemão. Era filho de Philipp Ernst, professor de artes e de Luise Kopp. Ernst aprendeu a pintar sozinho enquanto estudava Filosofia e Psiquiatria na Universidade de Bonn entre 1909 a 1914, chegando a exibir uma de suas pinturas em 1913. Em 1914 Ernst veio a conhecer o surrealismo através de um grande pintor surrealista, Jean Arp, pelo qual manteve a amizade pela vida inteira.
Em 1916 Ernst foi convocado pelo serviço militar alemão para lutar na Primeira Guerra Mundial. Após a guerra Ernst foi morar em Colônia com Jean Arp e Johannes Baargeld, vindo a fundar o Grupo Dada de Colônia. Adepto do irracional e do onírico e do inconsciente, esteve envolvido em outros movimentos artísticos, criando técnicas em pintura e escultura. No Dadaímo contribuiu com colagens e fotomontagens, composições que sugerem a múltipla identidade dos objetos por ele escolhidos para tema. Inventou técnicas como a decalcomania e o frottage, que consiste em aplicar uma folha de papel sobre uma superfície rugosa, como a madeira de veios salientes, e esfregar um lápis de cor ou grafita, de modo que o papel adquira o aspecto da superfície posta debaixo dele. Como o artista não tinha controle sobre o quadro que estava criando, o frottage também era considerado um método que dava acesso ao inconsciente.
Ernst Fez uma exibição em 1920 em Colonia, mais foi fechada pela polícia, alegando que a exposição era obscena demais. Ernst acabou se mudando para Paris em 1922, onde veio a se juntar com o grupo surrealista. Era amigo de Gala e Paul Éluard, André Breton e Tristan Tzara.
Enst viveu em Nova York entre 1941 a 1945, em 1942 conheceu a pintora surrealista Dorothea Tanning. Em 1946 se casou com ela no Arizona. Em 1958 voltou a morar em França até sua morte.
Man Ray (Emanuel Rabinovitch, Filadélfia, 27 de Agosto de 1890 - Paris, 18 de Novembro de 1976) foi um fotógrafo e pintor norte-americano. Em 1915 conhece o pintor francês Marcel Duchamp, com quem funda o grupo dadá nova-iorquino. Em 1921 contata com o movimento surrealista na pintura. Trabalha como fotógrafo para financiar a pintura e, com a nova atividade, desenvolve a sua arte, a raiografia, ou fotograma, criando imagens abstratas (obtidas sem o auxílio da câmara) mas com a exposição à luz de objetos previamente dispersos sobre o papel fotográfico.
Foi um dos nomes mais importantes do movimento vanguardista da década de 1920, responsável por inovações artísticas na fotografia. Muda-se na infância para Nova Iorque. Estudante de arquitectura, engenharia e artes plásticas, inicia-se na pintura ainda jovem.
Em 1915 conhece o pintor francês Marcel Duchamp, com quem funda o grupo dadá nova-iorquino. Em 1921 contacta com o movimento surrealista na pintura. Trabalha como fotógrafo para financiar a pintura e, com a nova actividade, desenvolve a sua arte, a raiografia, ou fotograma, criando imagens abstratas (obtidas sem o auxílio da câmara) mas com a exposição à luz de objetos previamente dispersos sobre o papel fotográfico.
Como cineasta, produz filmes surrealistas, como L'Étoile de Mer (1928), com o auxílio de uma técnica chamada solarização, pela qual inverte parcialmente os tons da fotografia. Muda-se para a Califórnia em 1940, para explorar as possibilidades expressivas da fotografia. Aí dá aulas sobre o tema. Seis anos depois, retorna a França. Em 1963 publica a autobiografia Auto-Retrato.
Hugo Ball (Pirmasens, 22 de Fevereiro de 1886 — Montagnola, 19 de Setembro de 1927) foi um poeta e escritor alemão. Ele foi um dos principais artista do dadaísmo e escreveu o manifesto dadaísta.
Com 24 anos, ingressou no Max Reinhardt School of Dramatic Art, estava empregado como director de cena no Munich Chamber Theater e ainda colaborava na revista ”Revolution”.
No “Café dês Westens” em Berlim, Ball juntamente com um grupo de poetas juntavam-se para discutir ideias. Após o despertar da Primeira Grande Guerra, ele e a sua mulher Emmy Hennings, emigraram para a Suiça. Aí Ball empregou-se como pianista e Emmy Hennings como declamadora.
Em Fevereiro de 1916, Hugo Ball fundou o Cabaret Voltaire na Spiegelgasse em Zurique, onde conheceu vários artistas como Hans Arp, Marcel Janco e Tristan Tzara. O seu objectivo era o de mostrar ao mundo que existiam pessoas com ideais diferentes dos da sociedade em geral.
Este filósofo e romancista protestou “contra o humilhante facto de haver uma guerra no século XX”, fazendo-o questionar-se acerca dos valores tradicionais. Uma marca indiscutível deste artista são os poemas sonoros (poemas sem palavras), tais como o “Gadji Beri Bimba” e o “Karawane. A sua obra é constituída, nomeadamente, por “Tenderenda, der Phantast” (romance não publicado escrito no período dada”, “Cristicism of German Intelligence”, 1919 (análise do estado de espírito do povo alemão) e por “Flucht aus der Zeit” (excetos do seu diário do período dadaísta).
Hannah Hoch, nascida Joanne Hoch no ano de 1889, em Gotha, foi uma famosa artista dadaísta alemã.
De 1912 a 1914, estudou no Colégio das Artes em Berlim, sobre a orientação de Harold Bergen. Estudou desenho em vidro e artes gráficas. Em 1915, Hannah começou uma influente relação com Raoul Hausmann, um membro do movimento Dada de Berlim. Assim, em 1919, Hoch, começou a envolver-se com o Dadaísmo, tornando-se pioneira, na arte da fotomontagem.
Ela reflectiu nas suas obras a justaposição entre a mulher alemã moderna e a mulher alemã colonial. Ao fazê-lo desafiou as representações culturais das mulheres, levantando questões relativamente à sexualidade das mulheres e aos seus papéis de género na nova sociedade. Com as suas imagens Hoch abordou os medos, possibilidades e as novas esperanças para as mulheres na Alemanha moderna.
Hannah passou os anos do terceiro Reich na Alemanha, tentando permanecer quieta e no plano de fundo. Casou, em 1938, com o muito mais novo homem de negócios e pianista Kurt Matthies, divorciando-se em 1944. Embora, durante a sua vida, o seu trabalho nunca tivesse sido verdadeiramente aclamado, ela continuou a produzir as suas fotomontagens e a exibi-las até à data da sua morte, em 1978.
Kurt Schwitters (1887 - Hannover, Alemanha /1948 - Ambleside, Inglaterra)
Fundador da Casa Merz e irradiador do Dada em Hannover, foi rejeitado ao tentar reunir-se ao Grupo de Berlim. Schwitters tratou a arte como formulação do desenvolvimento único do homem, a síntese de uma visão particular, no sentido de uma revolução de uso de materiais e meios. De forma totalmente anti-convencional. Seus quadros eram construídos com restos de material ou mesmo lixo, cordas, papéis usados: como passagens, rótulos, restos de embalagens; recolhidos nas ruas. Todos os elementos eram pregados ou colados nos quadros, sobre os quais fazia intervenções em pintura e poesia. Pintor, escultor e poeta, estudou na Academia de Dresden em 1908 e na de Berlim, de 1909 a 1914. Em 1917, aproxima-se do Grupo Der Sturm/A Tempestade de Berlim. A partir de 18, começou a fazer trabalhos abstratos e em 1919, realizou a primeira pintura com o título de Merz, dando início ao movimento. O termo surgiu quando Schwitters resolve colar no centro de sua pintura um pedaço de papel que trazia propaganda do Kommerz-und-Privatbank. Em 1920, conheceu Hans Arp e Raoul Hausmann e com a ajuda destes fundou a casa Merz, em Hannover. Entre 1922 e 23, participou da "campanha DADA" na Holanda, e na mesma época, começou a publicação da revista MERZ, que iria até 1932. Neste ano, participou do Grupo Abstaction/Création em Paris. Perseguido pelos nazistas mudou-se para a Noruega em 1937, quando funda a segunda casa Merz. Em 1940, com a invasão das tropas alemãs na Noruega, Schwitters fugiu para a Inglaterra, onde viveu seus últimos anos em Ambleside. Para Schwitters, o Dada levava um tipo de propaganda contra a cultura burguesa. Quando estudava em Dresden, Schwitters conheceu Wassily Kandinsky e teve sua primeira participação nas artes dentro das correntes expressionistas. Apenas um pouco mais tarde, tomaria parte nas atividades do Dada.
O Fim do Dada
Ainda que o ano de 1922 apareça como o do fim do dadaísmo, fortes ressonâncias do movimento podem ser notadas em perspectivas artísticas posteriores. Na França, muitos de seus protagonistas integraram o surrealismo subseqüente. Nos Estados Unidos, por sua vez, na década de 50, artistas como Robert Rauschenberg (1925), Jasper Johns (1930) e Louise Nevelson (1899-1988) retomam certas orientações do movimento no chamado neodada. foi declarado morto e provavelmente enterrado em Weimar, Alemanha, na famosa Bauhausfest, em 1922.
Can Dialectics Break Bricks?
sábado, 16 de junho de 2007
[a01] surrealismo
O que é o Surrealismo
Nas duas primeiras décadas do século XX, os estudos psicanalíticos de Freud e as incertezas políticas criaram um clima favorável para o desenvolvimento de uma arte que criticava a cultura européia e a frágil condição humana diante de um mundo cada vez mais complexo. Surgem movimentos estéticos que interferem de maneira fantasiosa na realidade.
O surrealismo foi por excelência a corrente artística moderna da representação do irracional e do subconsciente. Suas origens devem ser buscadas no dadaísmo e na pintura metafísica de Giorgio De Chirico.
Este movimento artístico surge todas às vezes que a imaginação se manifesta livremente, sem o freio do espírito crítico, o que vale é o impulso psíquico. Os surrealistas deixam o mundo real para penetrarem no irreal, pois a emoção mais profunda do ser tem todas as possibilidades de se expressar apenas com a aproximação do fantástico, no ponto onde a razão humana perde o controle
O Surrealismo apresenta relações com o Futurismo e o Dadaísmo. No entanto, se os dadaístas propunham apenas a destruição, os surrealistas pregavam a destruição da sociedade em que viviam e a criação de uma nova, a ser organizada em outras bases. Os surrealistas pretendiam, dessa forma, atingir uma outra realidade, situada no plano do subconsciente e do inconsciente. A fantasia, os estados de tristeza e melancolia exerceram grande atração sobre os surrealistas, e nesse aspecto eles se aproximam dos românticos, embora sejam muito mais radicais
A utilização, pela primeira vez, do termo Surrealismo, é atribuída ao escritor Guillaume Apollinaire, que se serviu dela, em 1917, para descrever dois momentos de inovação artística: o ballet de Jean Cocteau, "Parade", acerca do qual disse que era uma espécie de "sur-realismo", ou seja, uma verdade para além do realismo; o outro momento foi o da sua própria peça de teatro "Les Mamelles de Tirésias" que tinha como subtítulo "Um drama Surrealista". Contudo, o Surrealismo tal como o entendemos hoje, surge com o "Manifesto5 Surrealista", em 1924, do escritor André Breton e do seu amigo Philippe Soupault que adotaram o nome, entretanto já entrado \nem moda. Ao fazê-lo, Breton tinha a intenção de descrever a prática literária que ele e os seus amigos seguiam. Pode-se, por isso, considerar a designação de Surrealismo como uma aventura coletiva, iniciada nos anos 20, centrada na figura de Breton e que abarcava diversos campos da arte: literatura [poesia, prosa e teatro], pintura, escultura, fotografia, cinema e até manifestações intervencionistas. E, embora os escritores e artistas surrealistas partilhassem de objetivos, temas e assuntos comuns, a arte surrealista tomou diferentes formas.
Para muitos deles, o Surrealismo não era um estilo mas um «grito da mente virada para si mesma». O Surrealismo começou, assim, por ser uma expressão literária iniciada com o "Manifesto Surrealista", mas para as manifestações visuais não há uma data precisa. Terá sido também Breton ao escrever "Surrealismo e Pintura", em 1925, que lhe deu origem. A primeira exposição de arte considerada já como realmente surrealista aconteceu em 1926, na Galerie Surrealiste, \nem Paris. De entre os amigos de Breton e que tiveram uma grande importância para ele, destacam-se Soupault [que com ele escreveu o Manifesto], Louis Aragon que colaborou com ele na revista "Littérature", a qual se veio a tornar a base experimental e o principal veículo para os escritores que seguiram os seus ideais. A este grupo juntaram-se, mais tarde, outros artistas entre os quais se destacaram: Paul Eluard e Benjamin Péret. Assim, foi esta revista que despoletou toda a riqueza do Surrealismo. Para os seus seguidores, este "novo mundo" que procuravam explorar era o do espírito inconsciente, ao qual chamavam o "merveilleux" - o maravilhoso. O seu objetivo era procurar a comunicação com o irracional e o ilógico, desorientando e reorientando deliberadamente o consciente através do inconsciente. Um dos processos utilizados para o conseguir era através de uma "corrente-de-consciência" ou "escrita automática", mas não excluíam outras vias.
O que essencialmente importava era que o maravilhoso ocorresse em espaços onde a razão ainda não tinha penetrado, como na: infância, loucura, insónia, alucinação e sobretudo no sonho. Um outro espaço a explorar era o das sociedades ditas "primitivas", por estarem mais próximas dos seus instintos do que da sofisticação da "civilização". As primeiras exposições de artistas visuais que anunciam já uma tendência pré-Surrealista surgem ao longo dos anos 20 e são as de: Max Ernst [1921] com um prefácio de Breton no seu catálogo, André Masson [1924] e Joan Miró [1925] que são as antecessoras daquela que, em 1926, veio confirmar a arte surrealista. Esta foi uma década riquíssima em encontros de artistas, inaugurações, publicações e exposições e, Paris tornou-se o grande centro convergente e irradiador das novas ideias. A revista "Littérature", sua grande dinamizadora, foi substituída pelo periódico " La Révolution Surréaliste" o qual passou a ser o órgão de maior divulgação deste movimento. Ao grupo inicial, vêm juntar-se, aos poucos, outros artistas, como: Salvador Dalí, René Magritte [que fizera parte anteriormente do grupo surrealista belga], Yves Tanguy, Salvador Dalí, René Magritte [que fizera parte anteriormente do grupo surrealista belga]. . Em 1930, surge um novo periódico que vem substituir o "La Révolution Surréaliste"; é o "Le Surréalisme au Service de la Révolution". E, André Breton escreve o seu segundo "Manifesto do Surrealismo". Em 1933, uma nova publicação faz o seu aparecimento: é o "Minotaure". A década de 30 é marcada pela grande expansão do Surrealismo. Em 1936, surgiu na Grã-Bretanha, onde se realiza a primeira Exposição Internacional Surrealista. Breton, no seu segundo manifesto, proclamava as dificuldades experimentadas pelos seguidores do Surrealismo e insistia na sua compreensão como "um caminho para um mundo mental de possibilidades ilimitadas" ou "um certo ponto da mente onde a vida e a morte, o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável, o alto e o baixo, deixarão de ser entendidos como contradições". O segundo manifesto de Breton é uma reiteração dos objetivos do primeiro mas menos insistente, devido ao fato de a maior parte dos artistas, seus seguidoresm estarem a atravessar momentos mais difíceis: a aproximação da Guerra Civil da Espanha e tempos conturbados, provocados pelo antagonismo das ideologias políticas que então grassavam pela Europa.
Principais Artistas
Salvador Dali - é, sem dúvida, o mais conhecido dos artistas surrealistas. Estudou em Barcelona e depois em Madri, na Academia de San Fernando. Nessa época teve oportunidade de conhecer Lorca e Buñuel. Suas primeiras obras são influenciadas pelo cubismo de Gris e pela pintura metafísica de Giorgio De Chirico. Finalmente aderiu ao surrealismo, junto com seu amigo Luis Buñuel, cineasta. Em 1924 o pintor foi expulso da Academia e começou a se interessar pela psicanálise de Freud, de grande importância ao longo de toda a sua obra. Sua primeira viagem a Paris em 1927 foi fundamental para sua carreira. Fez amizade com Picasso e Breton e se entusiasmou com a obra de Tanguy e o maneirista Arcimboldo. O filme O Cão Andaluz, que fez com Buñuel, data de 1929. Ele criou o conceito de "paranóia critica" para referir-se à atitude de quem recusa a lógica que rege a vida comum das pessoas .Segundo ele, é preciso "contribuir para o total descrédito da realidade". No final dos anos 30 foi várias vezes para a Itália a fim de estudar os grandes mestres. Instalou seu ateliê em Roma, embora continuasse viajando. Depois de conhecer em Londres Sigmund Freud, fez uma viagem para a América, onde publicou sua biografia A Vida Secreta de Salvador Dali (1942). Ao voltar, se estabeleceu definitivamente em Port Lligat com Gala, sua mulher, ex-mulher do poeta e amigo Paul Éluard. Desde 1970 até sua morte dedicou-se ao desenho e à construção de seu museu. Além da pintura ele desenvolveu esculturas e desenho de jóias e móveis.



Joan Miró - iniciou sua formação como pintor na escola de La Lonja, em Barcelona. Em 1912 entrou para a escola de arte de Francisco Gali, onde conheceu a obra dos impressionistas e fauvistas franceses. Nessa época, fez amizade com Picabia e pouco depois com Picasso e seus amigos cubistas, em cujo grupo militou durante algum tempo. Em 1920 Miró instalou-se em Paris (embora no verão voltasse para Montroig), onde se formara um grupo de amigos pintores, entre os quais estavam Masson, Leiris, Artaud e Lial. Dois anos depois adquiriu forma La masía, obra fundamental em seu desenvolvimento estilístico posterior e na qual Miró demonstrou uma grande precisão gráfica. A partir daí sua pintura mudou radicalmente. Breton falava dela como o máximo do surrealismo e se permitiu destacar o artista como um dos grandes gênios solitários do século XX e da história da arte. A famosa magia de Miró se manifesta nessas telas de traços nítidos e formas sinceras na aparência, mas difíceis de serem elucidadas, embora se apresentem de forma amistosa ao observador. Miró também se dedicou à cerâmica e à escultura, nas quais extravasou suas inquietações pictóricas.



André Breton nasce em Tinchebray, França, em 1896. Formado em Medicina presta auxílio durante a I Guerra Mundial a feridos em combate. Pioneiro no Dadaísmo, é o primeiro a introduzir esta corrente na poesia. Quebra relações com o movimento Dada em 1922 e escreve o "Manifesto do Surrealismo" [o primeiro de uma série de três], onde são definidos os seus princípios e a sua oposição ao Dadaísmo. Em 1928, escreve "Nadja", onde as suas idéias surrealistas são postas pela primeira vez em prática. Em 1927, torna-se membro do Partido Comunista Francês, que abandona em 1935, depois de várias querelas com Louis Aragon e Paul Eluard. Em 1940, troca a França pela a América do Sul, tornando-se um entusiasta pela cultura Asteca. Regressa de novo a Paris e organiza a exposição surrealista de 1947, só voltando a organizar outra em 1964. André Breton, teve fama de grande mulherengo. E proveito também. Falece em Paris, em 1966.
Manifesto Surrealista
Tamanha é a nossa crença na vida o no que a vida tem de mais precário, e se bem entendido, a vida que é afinal, essa crença que se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com o seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar essa decisão [o que ele chama decisão!]. Bem modesto é agora o seu quinhão. Sabe as mulheres que possuíu, as ridículas aventuras em que se meteu. A sua riqueza ou a sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso, continua recém-nascido e quanto à aprovação da sua consciência moral, admito que lhe é indiferente. Se conservar alguma lucidez, não poderá senão recordar-se da sua infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais massacrada que tenha sido, com o desvelo dos ensinantes. Aí, a ausência de qualquer rigorismo conhecido dar-lhe-á a perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo. E ele agarra-se a essa ilusão. Só quer conhecer a facilidade momentânea e extrema, de todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes. Os bosques são claros ou escuros, nunca se vai.
Mas é verdade que não se pode ir tão longe pois não é uma questão de distância, apenas. Acumulam-se as ameaças, desiste-se, abandona-se uma parte da posição a conquistar. Esta imaginação que não admitia limites, agora só lhe permite atuar segundo as leis de uma utilidade arbitrária. Ela é incapaz de assumir por muito tempo esse papel inferior e quando chega ao vigésimo ano, prefere em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz.
Procura ele mais tarde, daqui e dali, refazer-se por sentir que pouco a pouco lhe faltam razões para viver, incapaz como ficou de enfrentar uma situação excepcional, como seja o amor, pois ele muito dificilmente o conseguirá. É que doravante, pertence de corpo e alma, a uma necessidade prática imperativa, que não permite ser desconsiderada. Faltará amplidão aos seus gostos, envergadura às suas ideias. De tudo o que lhe acontece e que pode acontecer-lhe, só vai reter o que for ligação deste evento com uma porção de eventos parecidos, nos quais não toma parte. Os eventos perdidos. Que digo, ele fará a sua avaliação em relação a um desses acontecimentos, menos aflitivo que os outros e às suas consequências. Ele não descobrirá aí, sob pretexto algum, a sua salvação.
Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti, é não perdoares.
Só o que me exalta ainda, é uma única palavra. Liberdade. Eu considero-a apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida. Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão, fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá contas do que pode ser e é o bastante para suspender por um instante a interdição terrível. É o bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar [como se fosse possível enganar-me mais ainda]. Onde começa ela a ficar nociva e onde se detém a confiança do espírito? Para o espírito, a possibilidade de errar, não é antes, a contingência do bem?
Fica a loucura. "A loucura que é encarcerada", como já se disse e bem. Essa ou a outra. Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem a sua internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis e que se não houvessem estes atos, a sua liberdade [ou o que se vê da sua liberdade] não poderia ser ameaçada. Que eles sejam, numa certa medida, vítimas da sua imaginação, concordo com isso, no sentido de que ela os impele à inobservância de certas regras, fora das quais o gênero se sente visado, o que cada um é pago para saber. Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhe fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto na sua imaginação e apreciam o seu delírio o bastante, para suportar que só para eles seja válido. E, de fato, alucinações, ilusões, etc. são uma fonte de gozo nada desprezível. A mais bem ordenada sensualidade encontra aí a sua parte e eu sei que passaria muitas noites a amansar com essa mão bonita nas últimas páginas do livro. "A Inteligência de Taine", dedica-se a singulares malefícios. As confidências dos loucos, passaria a minha vida a provocá-las. São pessoas de escrupulosa honestidade, cuja inocência só tem a minha como igual. Foi preciso Colombo partir com loucos para descobrir a América. E vejam, como essa loucura cresceu e durou.
Não será o medo da loucura, que nos vai obrigar a colocar a meia-haste, a bandeira da imaginação.
Para seu conhecimento
"O sonho não pode ser também aplicado à solução das questões fundamentais da vida?" (fragmento do Manifesto do Surrealismo de André Breton, francês que lançou o movimento).
No mesmo manifesto, Breton define Surrealismo: "Automatismo psíquico pelo qual alguém se propõe a exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento".
Conclusão
O Surrealismo foi uma corrente onde se integrou um grande número de artistas, fascinados pelas suas enormes possibilidades e pelo seu maravilhoso potencial. Muitos desses artistas vieram de outros movimentos já existentes [Dadaísmo, Cubismo] fazendo nele uma passagem mais ou menos duradoura e ainda de outros, que embora não se tendo associado ao grupo surrealista, como Frida Kahlo, revelaram nítidas influências do mesmo. O seu centro foi indubitavelmente Paris mas aos poucos foi-se expandindo, sobretudo nos anos 30 e 40 para a Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e outros países. A maior expansão para os Estados Unidos verificou-se a partir de 1940, altura em que a França foi ocupada pelos alemães. No entanto, já em 1932 se realizara naquele país uma exposição surrealista que deu a conhecer e projetou os seus autores, nos meios artísticos norte-americanos. Dalí, que para lá se deslocou em 1934, foi considerado como o embaixador do Surrealismo, obtendo um enorme sucesso, sobretudo com o seu quadro "A Persistência da Memória". Muitos foram os artistas que se deslocaram para os Estados Unidos. Entre eles podem-se apontar: Breton, Tanguy, Masson, Matta, etc. Também Max Ernst para lá emigra, depois de um período bastante conturbado da sua vida [detenções e fugas constantes] graças à influência e protecção da sua amiga e mecenas Peggy Guggenheim. O Surrealismo não foi apenas um estilo [há até quem o não considere como tal], foi um estado de espírito e uma maneira de viver. Influenciou sucessivas gerações de artistas, dando origem a outras correntes [como o Situacionismo e o Fluxus] e ainda nos nossos dias a sua influência continua a fazer-se sentir por se tratar de uma arte que tem como tema as funções da mente e a subjetividade. Ultrapassou os limites que habitualmente eram definidos para uma corrente artística. Depois dele, a qualquer obra de arte [seja qual for o seu género], desde que desarticulada, onírica, alucinada ou incoerente é classificada de "surreal". Para além da literatura, da pintura e da escultura, este movimento aparece ligado a outros géneros de arte, como o teatro e o cinema. Aliás, como já foi referido anteriormente, o teatro e o ballet estão na base do seu nascimento pois foi após ter assistido à representação de dois destes espetáculos que Apollinaire utilizou, pela primeira vez, o nome pelo qual ficou conhecido. Além disso, o Surrealismo sempre transmitiu um sentido de teatralidade, ao transformar as exposições de alguns dos seus elementos em autênticos espetáculos teatrais. O mesmo se poderá dizer no que respeita aos próprios artistas. Dalí é bem o exemplo disso, não só na maneira como se apresentava, como nas atitudes que frequentemente exibia. Um exemplo bastante elucidativo das suas excentricidades é a fotografia tirada na Exposição Internacional Surrealista de Londres, em 1936, em que posa junto de alguns dos seus amigos, equipado com um fato de mergulho. Apesar de parecer contraditório, o Surrealismo tinha pouco interesse pelo teatro como forma de arte, em si próprio. Talvez por isso mesmo, em determinadas ocasiões, tenha chegado a ser satirizado, nomeadamente por Jean Cocteau, na sua peça "Orphée". Contudo, estas ironias não pareceram afetar muito os surrealistas que as consideraram como que uma forma de expressão surrealista. Também o cinema, devido às possibilidades que oferece, utilizou os ideais surrealistas, sobretudo no que concerne à exploração dos sonhos. Em "Un Chien Andalou", exibido em 1928, Buñuel, recentemente integrado no Surrealismo, escreveu o argumento do filme em colaboração com Dalí, em que, aliás, entram os dois como atores. Este filme é quase um "manifesto" do cinema surrealista, pois que o enredo é incoerente e onírico e a sua técnica alucinatória. Depois deste, outros filmes surrealistasA surgem, como "L'Âge d'Or", em 1930, também com a participação do realizador espanhol, de Dalí e ainda de Max Ernst num dos seus raros papéis como ator de cinema. Há ainda a acrescentar que alguns dos quadros de Ernst, aparecem no décor deste filme. Até no mundo da moda a sua influência está presente. Este fato não nos pode espantar pois que alguns surrealistas trabalharam em publicidade, entre os quais se destaca novamente Dalí, pois que ele próprio ditou "um certo estilo", na sua época, construindo uma imagem extravagante e mundana que o converteu depois numa personagem popular e reconhecida em qualquer lado. O mesmo aconteceu com Magritte, cujas as imagens pictóricas foram sobejamente copiadas pelos publicitários.
Nas duas primeiras décadas do século XX, os estudos psicanalíticos de Freud e as incertezas políticas criaram um clima favorável para o desenvolvimento de uma arte que criticava a cultura européia e a frágil condição humana diante de um mundo cada vez mais complexo. Surgem movimentos estéticos que interferem de maneira fantasiosa na realidade.
O surrealismo foi por excelência a corrente artística moderna da representação do irracional e do subconsciente. Suas origens devem ser buscadas no dadaísmo e na pintura metafísica de Giorgio De Chirico.
Este movimento artístico surge todas às vezes que a imaginação se manifesta livremente, sem o freio do espírito crítico, o que vale é o impulso psíquico. Os surrealistas deixam o mundo real para penetrarem no irreal, pois a emoção mais profunda do ser tem todas as possibilidades de se expressar apenas com a aproximação do fantástico, no ponto onde a razão humana perde o controle
O Surrealismo apresenta relações com o Futurismo e o Dadaísmo. No entanto, se os dadaístas propunham apenas a destruição, os surrealistas pregavam a destruição da sociedade em que viviam e a criação de uma nova, a ser organizada em outras bases. Os surrealistas pretendiam, dessa forma, atingir uma outra realidade, situada no plano do subconsciente e do inconsciente. A fantasia, os estados de tristeza e melancolia exerceram grande atração sobre os surrealistas, e nesse aspecto eles se aproximam dos românticos, embora sejam muito mais radicais
A utilização, pela primeira vez, do termo Surrealismo, é atribuída ao escritor Guillaume Apollinaire, que se serviu dela, em 1917, para descrever dois momentos de inovação artística: o ballet de Jean Cocteau, "Parade", acerca do qual disse que era uma espécie de "sur-realismo", ou seja, uma verdade para além do realismo; o outro momento foi o da sua própria peça de teatro "Les Mamelles de Tirésias" que tinha como subtítulo "Um drama Surrealista". Contudo, o Surrealismo tal como o entendemos hoje, surge com o "Manifesto5 Surrealista", em 1924, do escritor André Breton e do seu amigo Philippe Soupault que adotaram o nome, entretanto já entrado \nem moda. Ao fazê-lo, Breton tinha a intenção de descrever a prática literária que ele e os seus amigos seguiam. Pode-se, por isso, considerar a designação de Surrealismo como uma aventura coletiva, iniciada nos anos 20, centrada na figura de Breton e que abarcava diversos campos da arte: literatura [poesia, prosa e teatro], pintura, escultura, fotografia, cinema e até manifestações intervencionistas. E, embora os escritores e artistas surrealistas partilhassem de objetivos, temas e assuntos comuns, a arte surrealista tomou diferentes formas.
Para muitos deles, o Surrealismo não era um estilo mas um «grito da mente virada para si mesma». O Surrealismo começou, assim, por ser uma expressão literária iniciada com o "Manifesto Surrealista", mas para as manifestações visuais não há uma data precisa. Terá sido também Breton ao escrever "Surrealismo e Pintura", em 1925, que lhe deu origem. A primeira exposição de arte considerada já como realmente surrealista aconteceu em 1926, na Galerie Surrealiste, \nem Paris. De entre os amigos de Breton e que tiveram uma grande importância para ele, destacam-se Soupault [que com ele escreveu o Manifesto], Louis Aragon que colaborou com ele na revista "Littérature", a qual se veio a tornar a base experimental e o principal veículo para os escritores que seguiram os seus ideais. A este grupo juntaram-se, mais tarde, outros artistas entre os quais se destacaram: Paul Eluard e Benjamin Péret. Assim, foi esta revista que despoletou toda a riqueza do Surrealismo. Para os seus seguidores, este "novo mundo" que procuravam explorar era o do espírito inconsciente, ao qual chamavam o "merveilleux" - o maravilhoso. O seu objetivo era procurar a comunicação com o irracional e o ilógico, desorientando e reorientando deliberadamente o consciente através do inconsciente. Um dos processos utilizados para o conseguir era através de uma "corrente-de-consciência" ou "escrita automática", mas não excluíam outras vias.
O que essencialmente importava era que o maravilhoso ocorresse em espaços onde a razão ainda não tinha penetrado, como na: infância, loucura, insónia, alucinação e sobretudo no sonho. Um outro espaço a explorar era o das sociedades ditas "primitivas", por estarem mais próximas dos seus instintos do que da sofisticação da "civilização". As primeiras exposições de artistas visuais que anunciam já uma tendência pré-Surrealista surgem ao longo dos anos 20 e são as de: Max Ernst [1921] com um prefácio de Breton no seu catálogo, André Masson [1924] e Joan Miró [1925] que são as antecessoras daquela que, em 1926, veio confirmar a arte surrealista. Esta foi uma década riquíssima em encontros de artistas, inaugurações, publicações e exposições e, Paris tornou-se o grande centro convergente e irradiador das novas ideias. A revista "Littérature", sua grande dinamizadora, foi substituída pelo periódico " La Révolution Surréaliste" o qual passou a ser o órgão de maior divulgação deste movimento. Ao grupo inicial, vêm juntar-se, aos poucos, outros artistas, como: Salvador Dalí, René Magritte [que fizera parte anteriormente do grupo surrealista belga], Yves Tanguy, Salvador Dalí, René Magritte [que fizera parte anteriormente do grupo surrealista belga]. . Em 1930, surge um novo periódico que vem substituir o "La Révolution Surréaliste"; é o "Le Surréalisme au Service de la Révolution". E, André Breton escreve o seu segundo "Manifesto do Surrealismo". Em 1933, uma nova publicação faz o seu aparecimento: é o "Minotaure". A década de 30 é marcada pela grande expansão do Surrealismo. Em 1936, surgiu na Grã-Bretanha, onde se realiza a primeira Exposição Internacional Surrealista. Breton, no seu segundo manifesto, proclamava as dificuldades experimentadas pelos seguidores do Surrealismo e insistia na sua compreensão como "um caminho para um mundo mental de possibilidades ilimitadas" ou "um certo ponto da mente onde a vida e a morte, o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável, o alto e o baixo, deixarão de ser entendidos como contradições". O segundo manifesto de Breton é uma reiteração dos objetivos do primeiro mas menos insistente, devido ao fato de a maior parte dos artistas, seus seguidoresm estarem a atravessar momentos mais difíceis: a aproximação da Guerra Civil da Espanha e tempos conturbados, provocados pelo antagonismo das ideologias políticas que então grassavam pela Europa.
Principais Artistas
Salvador Dali - é, sem dúvida, o mais conhecido dos artistas surrealistas. Estudou em Barcelona e depois em Madri, na Academia de San Fernando. Nessa época teve oportunidade de conhecer Lorca e Buñuel. Suas primeiras obras são influenciadas pelo cubismo de Gris e pela pintura metafísica de Giorgio De Chirico. Finalmente aderiu ao surrealismo, junto com seu amigo Luis Buñuel, cineasta. Em 1924 o pintor foi expulso da Academia e começou a se interessar pela psicanálise de Freud, de grande importância ao longo de toda a sua obra. Sua primeira viagem a Paris em 1927 foi fundamental para sua carreira. Fez amizade com Picasso e Breton e se entusiasmou com a obra de Tanguy e o maneirista Arcimboldo. O filme O Cão Andaluz, que fez com Buñuel, data de 1929. Ele criou o conceito de "paranóia critica" para referir-se à atitude de quem recusa a lógica que rege a vida comum das pessoas .Segundo ele, é preciso "contribuir para o total descrédito da realidade". No final dos anos 30 foi várias vezes para a Itália a fim de estudar os grandes mestres. Instalou seu ateliê em Roma, embora continuasse viajando. Depois de conhecer em Londres Sigmund Freud, fez uma viagem para a América, onde publicou sua biografia A Vida Secreta de Salvador Dali (1942). Ao voltar, se estabeleceu definitivamente em Port Lligat com Gala, sua mulher, ex-mulher do poeta e amigo Paul Éluard. Desde 1970 até sua morte dedicou-se ao desenho e à construção de seu museu. Além da pintura ele desenvolveu esculturas e desenho de jóias e móveis.



Joan Miró - iniciou sua formação como pintor na escola de La Lonja, em Barcelona. Em 1912 entrou para a escola de arte de Francisco Gali, onde conheceu a obra dos impressionistas e fauvistas franceses. Nessa época, fez amizade com Picabia e pouco depois com Picasso e seus amigos cubistas, em cujo grupo militou durante algum tempo. Em 1920 Miró instalou-se em Paris (embora no verão voltasse para Montroig), onde se formara um grupo de amigos pintores, entre os quais estavam Masson, Leiris, Artaud e Lial. Dois anos depois adquiriu forma La masía, obra fundamental em seu desenvolvimento estilístico posterior e na qual Miró demonstrou uma grande precisão gráfica. A partir daí sua pintura mudou radicalmente. Breton falava dela como o máximo do surrealismo e se permitiu destacar o artista como um dos grandes gênios solitários do século XX e da história da arte. A famosa magia de Miró se manifesta nessas telas de traços nítidos e formas sinceras na aparência, mas difíceis de serem elucidadas, embora se apresentem de forma amistosa ao observador. Miró também se dedicou à cerâmica e à escultura, nas quais extravasou suas inquietações pictóricas.



André Breton nasce em Tinchebray, França, em 1896. Formado em Medicina presta auxílio durante a I Guerra Mundial a feridos em combate. Pioneiro no Dadaísmo, é o primeiro a introduzir esta corrente na poesia. Quebra relações com o movimento Dada em 1922 e escreve o "Manifesto do Surrealismo" [o primeiro de uma série de três], onde são definidos os seus princípios e a sua oposição ao Dadaísmo. Em 1928, escreve "Nadja", onde as suas idéias surrealistas são postas pela primeira vez em prática. Em 1927, torna-se membro do Partido Comunista Francês, que abandona em 1935, depois de várias querelas com Louis Aragon e Paul Eluard. Em 1940, troca a França pela a América do Sul, tornando-se um entusiasta pela cultura Asteca. Regressa de novo a Paris e organiza a exposição surrealista de 1947, só voltando a organizar outra em 1964. André Breton, teve fama de grande mulherengo. E proveito também. Falece em Paris, em 1966.
Manifesto Surrealista
Tamanha é a nossa crença na vida o no que a vida tem de mais precário, e se bem entendido, a vida que é afinal, essa crença que se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com o seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar essa decisão [o que ele chama decisão!]. Bem modesto é agora o seu quinhão. Sabe as mulheres que possuíu, as ridículas aventuras em que se meteu. A sua riqueza ou a sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso, continua recém-nascido e quanto à aprovação da sua consciência moral, admito que lhe é indiferente. Se conservar alguma lucidez, não poderá senão recordar-se da sua infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais massacrada que tenha sido, com o desvelo dos ensinantes. Aí, a ausência de qualquer rigorismo conhecido dar-lhe-á a perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo. E ele agarra-se a essa ilusão. Só quer conhecer a facilidade momentânea e extrema, de todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes. Os bosques são claros ou escuros, nunca se vai.
Mas é verdade que não se pode ir tão longe pois não é uma questão de distância, apenas. Acumulam-se as ameaças, desiste-se, abandona-se uma parte da posição a conquistar. Esta imaginação que não admitia limites, agora só lhe permite atuar segundo as leis de uma utilidade arbitrária. Ela é incapaz de assumir por muito tempo esse papel inferior e quando chega ao vigésimo ano, prefere em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz.
Procura ele mais tarde, daqui e dali, refazer-se por sentir que pouco a pouco lhe faltam razões para viver, incapaz como ficou de enfrentar uma situação excepcional, como seja o amor, pois ele muito dificilmente o conseguirá. É que doravante, pertence de corpo e alma, a uma necessidade prática imperativa, que não permite ser desconsiderada. Faltará amplidão aos seus gostos, envergadura às suas ideias. De tudo o que lhe acontece e que pode acontecer-lhe, só vai reter o que for ligação deste evento com uma porção de eventos parecidos, nos quais não toma parte. Os eventos perdidos. Que digo, ele fará a sua avaliação em relação a um desses acontecimentos, menos aflitivo que os outros e às suas consequências. Ele não descobrirá aí, sob pretexto algum, a sua salvação.
Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti, é não perdoares.
Só o que me exalta ainda, é uma única palavra. Liberdade. Eu considero-a apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida. Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão, fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá contas do que pode ser e é o bastante para suspender por um instante a interdição terrível. É o bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar [como se fosse possível enganar-me mais ainda]. Onde começa ela a ficar nociva e onde se detém a confiança do espírito? Para o espírito, a possibilidade de errar, não é antes, a contingência do bem?
Fica a loucura. "A loucura que é encarcerada", como já se disse e bem. Essa ou a outra. Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem a sua internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis e que se não houvessem estes atos, a sua liberdade [ou o que se vê da sua liberdade] não poderia ser ameaçada. Que eles sejam, numa certa medida, vítimas da sua imaginação, concordo com isso, no sentido de que ela os impele à inobservância de certas regras, fora das quais o gênero se sente visado, o que cada um é pago para saber. Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhe fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto na sua imaginação e apreciam o seu delírio o bastante, para suportar que só para eles seja válido. E, de fato, alucinações, ilusões, etc. são uma fonte de gozo nada desprezível. A mais bem ordenada sensualidade encontra aí a sua parte e eu sei que passaria muitas noites a amansar com essa mão bonita nas últimas páginas do livro. "A Inteligência de Taine", dedica-se a singulares malefícios. As confidências dos loucos, passaria a minha vida a provocá-las. São pessoas de escrupulosa honestidade, cuja inocência só tem a minha como igual. Foi preciso Colombo partir com loucos para descobrir a América. E vejam, como essa loucura cresceu e durou.
Não será o medo da loucura, que nos vai obrigar a colocar a meia-haste, a bandeira da imaginação.
Para seu conhecimento
"O sonho não pode ser também aplicado à solução das questões fundamentais da vida?" (fragmento do Manifesto do Surrealismo de André Breton, francês que lançou o movimento).
No mesmo manifesto, Breton define Surrealismo: "Automatismo psíquico pelo qual alguém se propõe a exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento".
Conclusão
O Surrealismo foi uma corrente onde se integrou um grande número de artistas, fascinados pelas suas enormes possibilidades e pelo seu maravilhoso potencial. Muitos desses artistas vieram de outros movimentos já existentes [Dadaísmo, Cubismo] fazendo nele uma passagem mais ou menos duradoura e ainda de outros, que embora não se tendo associado ao grupo surrealista, como Frida Kahlo, revelaram nítidas influências do mesmo. O seu centro foi indubitavelmente Paris mas aos poucos foi-se expandindo, sobretudo nos anos 30 e 40 para a Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e outros países. A maior expansão para os Estados Unidos verificou-se a partir de 1940, altura em que a França foi ocupada pelos alemães. No entanto, já em 1932 se realizara naquele país uma exposição surrealista que deu a conhecer e projetou os seus autores, nos meios artísticos norte-americanos. Dalí, que para lá se deslocou em 1934, foi considerado como o embaixador do Surrealismo, obtendo um enorme sucesso, sobretudo com o seu quadro "A Persistência da Memória". Muitos foram os artistas que se deslocaram para os Estados Unidos. Entre eles podem-se apontar: Breton, Tanguy, Masson, Matta, etc. Também Max Ernst para lá emigra, depois de um período bastante conturbado da sua vida [detenções e fugas constantes] graças à influência e protecção da sua amiga e mecenas Peggy Guggenheim. O Surrealismo não foi apenas um estilo [há até quem o não considere como tal], foi um estado de espírito e uma maneira de viver. Influenciou sucessivas gerações de artistas, dando origem a outras correntes [como o Situacionismo e o Fluxus] e ainda nos nossos dias a sua influência continua a fazer-se sentir por se tratar de uma arte que tem como tema as funções da mente e a subjetividade. Ultrapassou os limites que habitualmente eram definidos para uma corrente artística. Depois dele, a qualquer obra de arte [seja qual for o seu género], desde que desarticulada, onírica, alucinada ou incoerente é classificada de "surreal". Para além da literatura, da pintura e da escultura, este movimento aparece ligado a outros géneros de arte, como o teatro e o cinema. Aliás, como já foi referido anteriormente, o teatro e o ballet estão na base do seu nascimento pois foi após ter assistido à representação de dois destes espetáculos que Apollinaire utilizou, pela primeira vez, o nome pelo qual ficou conhecido. Além disso, o Surrealismo sempre transmitiu um sentido de teatralidade, ao transformar as exposições de alguns dos seus elementos em autênticos espetáculos teatrais. O mesmo se poderá dizer no que respeita aos próprios artistas. Dalí é bem o exemplo disso, não só na maneira como se apresentava, como nas atitudes que frequentemente exibia. Um exemplo bastante elucidativo das suas excentricidades é a fotografia tirada na Exposição Internacional Surrealista de Londres, em 1936, em que posa junto de alguns dos seus amigos, equipado com um fato de mergulho. Apesar de parecer contraditório, o Surrealismo tinha pouco interesse pelo teatro como forma de arte, em si próprio. Talvez por isso mesmo, em determinadas ocasiões, tenha chegado a ser satirizado, nomeadamente por Jean Cocteau, na sua peça "Orphée". Contudo, estas ironias não pareceram afetar muito os surrealistas que as consideraram como que uma forma de expressão surrealista. Também o cinema, devido às possibilidades que oferece, utilizou os ideais surrealistas, sobretudo no que concerne à exploração dos sonhos. Em "Un Chien Andalou", exibido em 1928, Buñuel, recentemente integrado no Surrealismo, escreveu o argumento do filme em colaboração com Dalí, em que, aliás, entram os dois como atores. Este filme é quase um "manifesto" do cinema surrealista, pois que o enredo é incoerente e onírico e a sua técnica alucinatória. Depois deste, outros filmes surrealistasA surgem, como "L'Âge d'Or", em 1930, também com a participação do realizador espanhol, de Dalí e ainda de Max Ernst num dos seus raros papéis como ator de cinema. Há ainda a acrescentar que alguns dos quadros de Ernst, aparecem no décor deste filme. Até no mundo da moda a sua influência está presente. Este fato não nos pode espantar pois que alguns surrealistas trabalharam em publicidade, entre os quais se destaca novamente Dalí, pois que ele próprio ditou "um certo estilo", na sua época, construindo uma imagem extravagante e mundana que o converteu depois numa personagem popular e reconhecida em qualquer lado. O mesmo aconteceu com Magritte, cujas as imagens pictóricas foram sobejamente copiadas pelos publicitários.
china: em urbanização
[National Geographic. junho/2007. Disponível em http://nationalgeographic.abril.uol.com.br/ng/edicoes/87/reportagens/mt_234786.shtml]
A China, em disparada, não quer saber de limites de velocidade. Cidades multiplicam-se pelo mapa do país, numa febre cartográfica contagiante. Um repórter e um fotógrafo registram meses desse frenesi empreendedor.
Às 14h30, os chefes começaram a projetar a fábrica. O prédio de três andares alugado estava perfeitamente vazio: paredes brancas, piso livre, porta da frente sem tranca. Entrada e saída à vontade. A mesma liberdade vista em todo o resto da Zona de Desenvolvimento Econômico de Lishui. Os prédios vizinhos também eram cascas vazias, e ladeavam uma rua de terra que apontava para uma rodovia inacabada. Painéis prateados para outdoors refletiam o céu, vazios, anunciando apenas a luz do Sol de fim de outubro.Wang Aiguo e Gao Xiaomeng tinham viajado 128 quilômetros desde Wenzhou, cidade na costa sudeste da China. Eram parentes, tio e sobrinho, e chegaram a Lishui para montar novo negócio. "Toda esta área acaba de ser aberta", explicou Gao quando o encontrei no portão da fábrica. "Wenzhou já foi assim, mas agora ali está muito caro, ainda mais para uma firma pequena. Um lugar como este hoje é melhor."No primeiro andar juntaram-se a nós um empreiteiro e seu ajudante. Não havia arquiteto nem desenhista, e ninguém trouxera régua ou fio de prumo. O Chefe Gao começou distribuindo cigarros da marca 555. Tinha 33 anos, cabelo à escovinha e um jeito nervoso que piorava quando seu tio estava por perto. Depois de todos acenderem seus cigarros, o moço pegou caneta e um pedaço de papel em sua bolsa a tiracolo.
Primeiro, desenhou as paredes exteriores da sala. Depois, começou a projetar; cada traço representava uma parede a ser instalada, e a fábrica começou a tomar forma diante dos nossos olhos. Desenhou duas linhas no canto sudoeste: a futura sala das máquinas. Contíguo a ela, um laboratório de química, seguido de um depósito e uma sala das máquinas secundária. O Chefe Wang, o tio, examinou a página e calmamente decretou: "Não precisamos dessa sala".Conferenciaram e resolveram riscar a sala. Em 27 minutos haviam concluído o projeto do térreo. Passamos ao andar de cima. Mais cigarros. O Chefe Gao virou o papel. Em mais 23 minutos, projetaram um escritório, um corredor e três salas de visita para os gerentes da fábrica. No andar de cima, os dormitórios dos trabalhadores tomaram-lhes mais 14 minutos. Ao todo, mapearam uma fábrica de 2 mil metros quadrados, de ponta a ponta, em uma hora e quatro minutos. Gao entregou o pedaço de papel ao empreiteiro. O homem perguntou para quando queriam o orçamento."Que tal hoje à tarde?" O empreiteiro olhou o relógio. Eram 15h48. "Não dá para fazer tão rápido", rebateu. "Tudo bem; então amanhã de manhã", conformou-se o Chefe Gao.Discutiram sobre o material: tinta, cimento, areia, blocos de concreto de cinza. "Queremos as portas de 10 dólares", o Chefe Wang avisou o empreiteiro, que era natural de Lishui. "E não tente levar vantagem usando material mais barato. Faça um bom trabalho agora, e nós contrataremos você de novo. É assim que se ganha dinheiro em Wenzhou. Entendeu?"
Um mar de comodidades
A livraria do aeroporto de Wenzhou tem no estoque um livro intitulado Você Não Entende Realmente o Povo de Wenzhou. Na mesma prateleira encontramos: O Temido Povo de Wenzhou; Coletânea dos Segredos do Povo de Wenzhou para Ganhar Dinheiro; e As Jóias do Oriente: as Histórias Comerciais de 50 Empresários de Wenzhou. Os chineses andam fascinados por essa parte da província de Zhejiang, e a imprensa local contribui para a lenda. A revista Fortune Weekly de Wenzhou publicou um perfil dos milionários locais. Uma das perguntas era: se você fosse forçado a escolher entre seu negócio e sua família, com qual ficaria? Quase 60% escolheram o negócio e 20% a família. O restante permaneceu indeciso.Desde o princípio, certo desespero impulsionou a tradição empresarial de Wenzhou. A região tinha pouco solo cultivável, e seu terreno montanhoso era obstáculo a boas estradas para o interior. Com poucas opções, os habitantes recorreram ao mar, e, no século 17, período final da dinastia Ming, já tinham desenvolvido sólida cultura comercial. Mas perderam o elã após 1949, quando os comunistas tomaram o poder, cortaram as ligações marítimas com o exterior e extinguiram a iniciativa privada. Mesmo no começo da década de 1980, quando as reformas de livre mercado de Deng Xiaoping começaram a vingar, Wenzhou saiu em desvantagem. Seus habitantes não eram instruídos como os de Pequim, e não atraíram o investimento estrangeiro de Xangai. Quando o governo criou a primeira Zona Econômica Especial, com comércio e incentivos fiscais destinados a fomentar o crescimento, escolheu Shenzhen, próximo a Hong Kong.Mas Wenzhou possuía um inestimável capital: o instinto comercial nativo. Famílias abriram minúsculas oficinas, muitas com menos de 12 trabalhadores, para produzir mercadorias simples. Com o tempo, as oficinas prosperaram e transformaram-se em fábricas, e Wenzhou passou a dominar certos ramos de baixa tecnologia. Hoje, um quarto dos calçados comprados na China provém de Wenzhou. A cidade fabrica 70% dos isqueiros usados no mundo. Mais de 90% da economia de Wenzhou é privada.
O Modelo Wenzhou, como se tornou conhecido, difundiu-se por toda a província meridional de Zhejiang. Embora quase 80% de todos os empresários de Zhejiang tenham apenas oito anos ou menos de educação formal, a província tornou-se a mais rica da China pela maioria dos indicadores econômicos. A renda per capita tanto na zona rural como na urbana é maior que a das demais províncias chinesas (excluindo as cidades com administração especial, como Xangai e Pequim). Zhejiang reflete o milagre econômico chinês: uma nação pobre e predominantemente rural que deu um jeito de tornar-se o mais dinâmico centro fabril do mundo.Ao longo de um ano, estive várias vezes em Zhejiang, viajando pela província num carro alugado em Wenzhou. Assim como um peregrino faz sua jornada pela Espanha, parando em santuários de santos sem renome, passei pela terra natal de produtos tão corriqueiros que nunca indagamos de onde vieram. Do aeroporto, seguindo para o sul pelo litoral, comecei pelas dobradiças. Naquele trecho de estrada, a maioria dos outdoors anunciava as mais variadas versões da peça. Um quilômetro e meio depois, os anúncios eram sobre plugues e adaptadores elétricos. Cheguei então a uma área de interruptores, seguida por uma de lâmpadas fluorescentes e por fim uma de torneiras.Mais para o interior da província, os santuários tornavam-se mais elaborados. Em Qiaotou, parei para admirar uma estátua prateada de 6 metros de altura erigida pelos anciões da cidade: um botão alado. A população de Qiaotou não passa de 64 mil, mas 380 fábricas produzem ali mais de 70% dos botões de roupa fabricados na China. Em Wuyi, perguntei a alguns circunstantes qual era o produto local. Um homem enfiou a mão no bolso e tirou três cartas de baralho: damas, todas elas. A cidade fabrica mais de 1 bilhão de baralhos por ano. O município de Datang produz um terço das meias do mundo. Songxia fabrica 350 milhões de guarda-chuvas por ano. Raquetes de tênis de mesa vêm de Shangguan; Fenshui produz canetas; Xiaxie faz brinquedos de playground. E 40% das gravatas do mundo saem de Shengzhou.
Tudo é vendido em uma cidade chamada Yiwu. Para o peregrino de Zhejiang, essa é a terra prometida. O slogan de Yiwu é: "Um mar de comodidades, o paraíso das compras". Yiwu é um lugar ermo a 161 quilômetros da costa, mas recebe comerciantes do mundo todo que ali vão comprar no atacado. Há o distrito dos lenços, um mercado de sacolas plásticas, uma avenida onde todas as lojas vendem elásticos. Quando você não agüentar mais ver botões, pode dar uma volta pela rua do Zíper Profissional Binwang. A International Trade City, em Yiwu, uma galeria comercial, tem mais de 30 mil quiosques - se você passar um minuto em cada um, oito horas por dia, irá embora dois meses depois. Yiwu atrai tantos negociantes do Oriente Médio que um bairro abriga 23 grandes restaurantes árabes e uma padaria libanesa. Jantei no Arbeer, restaurante curdo, com um negociante do norte do Iraque. Ele estava comprando jeans e lâmpadas elétricas.No passado, Lishui era a única dentre as principais cidades de Zhejiang fora da rota dos peregrinos. Ela fica no alto das montanhas, onde o rio Ou é raso demais para o tráfego de embarcações grandes. Um morador chamou-a de o "Tibet de Zhejiang". Entendi sua mensagem: naquela paisagem industrial, Lishui era a última fronteira. Era a cidade mais pobre da rica província chinesa, mas a nova rodovia estava quase concluída, e os investidores estavam chegando rápido.
A memória de liu hongwei
Três meses depois de projetarem a fábrica, o Chefe Gao e o Chefe Wang testaram o equipamento. Desde minha primeira visita, haviam aliciado meia dúzia de operários especializados de outra fábrica do sul da China e instalado uma linha de montagem. Uma máquina de 15 metros de comprimento espreitava carrancuda na sala do canto: 5 443 quilos de aço pintado de verde-mar.
O troço rugiu quando o técnico encarregado acionou o interruptor. Bicos de gás zumbiram sob belas chamas azuladas. Uma esteira de aço inoxidável deu um arranco e avançou. O painel digital acompanhava a temperatura que subia: 200 graus Celsius, 300 graus, 400. Chegou a 474, depois caiu. Precisava chegar a 500 para a produção começar. Mas não avançava."Talvez seja porque aqui é mais frio que em Guangdong", disse o técnico. Seu nome era Luo Shouyun, mas todos o chamavam de Mecânico Luo. Ele calçou luvas à prova de fogo e tentou abrir a porta de um dos fornos da máquina. Mas a maçaneta derreteu em sua mão. Ele a soltou, xingando, e a peça de metal incandescente ficou no chão, sibilando como uma cobra zangada. "Mei shir", disse o Chefe Wang. "Tudo bem."O Mecânico Luo remexeu na caixa de controle. Especulou que os botijões de gás natural talvez estivessem frios demais. Os homens ajustaram as válvulas e começaram a balançar os volumosos tubos metálicos. A temperatura não subiu. Sacudiram mais forte os tubos, e nada. Alguém foi buscar uma escada e água fervendo.
O Chefe Gao parecia mais alvoroçado que o habitual. Nunca havia instalado uma linha de montagem tão grande. Mais de uma década antes, começara sua primeira oficina na periferia de Wenzhou. Com seus pais e duas irmãs, produzia tecido para forro de cós de calças baratas. Inicialmente os lucros foram de 50%, e a oficina cresceu sem parar até brotarem no bairro mais de 20 outras firmas produtoras de forro de calça. As margens de lucro foram caindo, e o Chefe Gao desistiu. "Antigamente cada um tentava descobrir um produto que mais ninguém fabricava", explicou ele. "Mas agora tudo já está sendo produzido por alguém na China."Esse é um ponto fraco do Modelo de Wenzhou. Os empreendedores produzem mercadorias que requerem pouco capital e baixa tecnologia, e isso facilita aos vizinhos entrar no ramo. O Chefe Wang, o tio, começara assim. Antes fabricava fio de aço para armações de sutiãs, e seus lucros foram caindo. Quando os dois homens juntaram as forças, decidiram continuar a fabricar os fios metálicos, mas também descobrir um produto principal mais lucrativo.
Por sorte, o sutiã médio possui 12 componentes distintos. Cogitaram na linha, depois na renda, depois nos fechos. Avaliaram. Mas apenas quando chegaram em cima, nas minúsculas argolas em forma de 0 e 8 que ajustam as alças do sutiã, acharam o que procuravam.
Uma argola de sutiã é feita de aço revestido com náilon acetinado, e sua produção é um processo especializado. O principal equipamento é uma linha de montagem regulada por computador. Ela se divide em três estágios, e em cada um o objeto é aquecido a mais de 500 graus Celsius. Tais argolas eram produzidas na Europa, mas, no começo dos anos 1990, Taiwan dominou o mercado. Em meados daquela década, uma empresa da China continental chamada Daming importou uma dessas linhas de montagem.
Na época em que chegou ao continente, onde os custos de produção são muito menores, "a Máquina" praticamente fabricava dinheiro. O Chefe enriqueceu, e então um operário chamado Liu Hongwey teve uma idéia. Apesar de sua pouca instrução, Liu era um mecânico especializado e tinha intimidade com a Máquina. Ele memorizou a linha de montagem, peça por peça, e em segredo desenhou esquemas de todo o equipamento. Quando o desenho ficou pronto, ele entrou em contato com um segundo Chefe em uma empresa chamada Shangang Keji, na cidade de Shantou.
Em 1998, o Chefe Número 2 contratou Liu e levou seu desenho à Fábrica de Equipamentos Qingsui, em Guangzhou, que produziu a linha de montagem segundo as especificações. De início, a nova Máquina não funcionou - afinal de contas, ninguém tem memória perfeita. Mas dois meses de ajustes resolveram os problemas. A Shangang Keji começou a produzir argolas de sutiã, mas então Liu encontrou o Chefe Número 3 em uma empresa chamada Jinde. Cada vez que Liu trocava de patrão, pedia dinheiro por seus desenhos e por seu conhecimento. Acredita-se que ele possa ter faturado até 20 000 dólares.
Quase dois séculos depois, a sorte de Liu Hongwei acabou quando ele tentou oferecer seu know-how para o Chefe Número 4. Segundo um ex-colega, o Número 3 ofereceu um prêmio de 12 000 dólares para quem encontrasse Liu, e ele fugiu. "Sei que a Jinde estava procurando por ele, e que estavam bravos", disse Gu Hong, administrador de empresa de Qingsui que ajudara a construir a Máquina. "Mas ele sumiu."
A indústria também já tinha mudado. Nos cinco anos seguintes à reinvenção de Liu, o preço das argolas de sutiã caiu 60%. Hoje mais de 20 fábricas chinesas produzem esse artigo, e a Máquina está ao alcance de quem tiver 65 000 dólares. Antes, todos os principais fabricantes se concentravam no sul, mas agora o Chefe Gao e o Chefe Wang tinham planos de ser os primeiros fabricantes de argola em Zhejiang.
No dia em que testaram a Máquina, a temperatura recusou-se a subir mais, e os homens tiveram de revezar-se na escada, jogando sem parar baldes de água fervendo nos botijões de gás. Depois de quatro horas de testes, desistiram. No fim, o Mecânico Luo desmontou a Máquina, substituiu uma peça importante e aproximou mais os bicos de gás da linha de montagem. Isso levou quase duas semanas. Algumas partes da Máquina receberam ajustes improvisados com madeira compensada e arame. A maçaneta que derreteu não tornou a ser afixada.
"Os esquemas ainda não são muito bons", o Mecânico Luo explicou. Anos atrás, ele trabalhara com Liu Hongwei, e disse as mesmas coisas que ouvi de outros sobre o famoso larápio de tecnologia. Liu era alto, trapaceiro e da província de Sichuan. Achavam que talvez Liu não fosse seu nome verdadeiro, e nunca nenhuma pessoa tinha conhecido sua esposa ou filho. E, agora, ninguém tinha a mínima idéia de seu paradeiro.
Remover montanhas
O lema do governo para a Zona de Desenvolvimento Econômico de Lishui é: "Cada pessoa faz o trabalho de duas; o trabalho de dois dias é feito em um". Talvez seja um ideal muito modesto. De 2000 a 2005, a população da cidade passou de 160 mil para 250 mil habitantes, e o governo local investiu 8,8 bilhões de dólares em infra-estrutura na região sob seus cuidados - cinco vezes mais que a quantia gasta no meio século anterior. Em termos monetários, o que antes eram 50 dias de trabalho agora se fazia em um.
Nas três últimas décadas, a economia chinesa cresceu em média 10% ao ano. É impelida pela maior migração que o mundo já viu: estima-se que 140 milhões de chineses já tenham deixado a zona rural, e há previsão de que outros 45 milhões se juntem à força de trabalho urbana nos próximos cinco anos. A maioria foi para cidades industriais ao longo da costa, mas em anos recentes os migrantes têm sido crescentemente atraídos para cidades interioranas, onde ainda é menor a competição por emprego.
Essas cidades precisam crescer e atrair indústrias por conta própria, pois o governo central já não custeia nem orienta, como na antiga economia planejada. Uma estratégia comum é criar uma zona fabril: limpar uma área, vender terrenos a preços baixos e conceder incentivos fiscais aos investidores interessados. Em 2002 Lishui começou a construção de uma zona fabril, um lote de 14,5 quilômetros quadrados contíguo à orla sul da cidade. Em 2006, quase 200 fábricas atraíam 30 mil trabalhadores migrantes.
Esse crescimento inicial foi regido por Wang Lijiong, 48 anos, diretor da Zona de Desenvolvimento. Na juventude, o primeiro emprego de Wang fora numa fábrica de dinamite, antes de passar cinco anos dirigindo um tanque para o Exército de Libertação do Povo. Ao sair do Exército, ele foi trabalhar em um banco estatal e começou a ascender na burocracia do governo. Wang é cordial e franco, qualidades raras em autoridades chinesas. Disse-me que ainda se inspira em sua experiência militar. "Num tanque, vamos direto ao alvo", comparou ele. "Precisamos do espírito de persistência."
A zona de Lishui ocupa um terreno acidentado antes usado para cultivo. O Diretor Wang disse-me que aproximadamente mil camponeses haviam sido realocados, além de exatamente 108 montanhas e montes. "Rebaixamos os lugares altos e elevamos os baixos", explicou com simplicidade. Em uma de minhas viagens anteriores a Lishui eu vira uma elevação ser rebaixada. Havia 30 caminhões basculantes e 11 escavadeiras; os operários tinham acabado de rechear a colina com 8 981 quilos de dinamite. Aquele local viria a abrigar meia dúzia de indústrias químicas.
Um operário reparou em mim e aproximou-se. Trazia em cada mão uma sacola de compras barata, cheia de explosivos. Pôs as sacolas no chão com naturalidade e pediu: "O senhor levaria meu irmão mais novo para Nova York?"
Depois de uma década vivendo como estrangeiro na China, eu já estava acostumado a mudanças bruscas de assunto numa conversa, mas aquela abordagem me deixou mudo. Além disso, eu não conseguia tirar os olhos daquelas sacolas. O homem sorriu e disse: "Estou brincando. Mas ele quer mesmo ir para os Estados Unidos".
Ele apresentou-me a Mu Shiyou, o encarregado da detonação. Mu e eu andamos até a base do monte condenado, onde um emaranhado de fios ligava-se à dinamite empilhada. Ele emendou os fios formando uma única linha e a desenrolou enquanto nos afastávamos. A área fora evacuada. O silêncio era tanto que eu podia ouvir os pássaros acima de nós.
A caixa do detonador tinha dois comutadores rotulados: "Carrega" e "Explode". Ficamos atrás das rodas de lagarta de um trator estacionado. Um comando crepitou no walkie-talkie de Mu: "Carregar!" Ele acionou o comutador e sugeriu-me: "Vá até ali para ver melhor!" Contagem regressiva, outro comando, e ele acionou o segundo comutador. Tudo muito simples. Por um breve instante, antes de se ouvir qualquer som, uma teia de eletricidade bruxuleou por toda a encosta, como relâmpagos ao atingir a terra.
Vestir a camisa da empresa
Em 6 de fevereiro, meio mês depois de testar a Máquina, o Chefe Wang inaugurou oficialmente a fábrica queimando duas caixas de fogos de artifício. Pelo calendário lunar, era o oitavo dia do ano novo, e um especialista em feng shui aconselhara os proprietários a aproveitar o oito, número de sorte na China.
Como a maioria dos empresários de Wenzhou, o Chefe Wang era muito supersticioso. Falava com voz aguda, gaguejando um pouco e pestanejando rapidamente. Tinha 40 anos. No passado, sempre fabricara partes específicas de objetos: peças de encanamento, de campainha de bicicleta, de sutiãs. Hoje ele percebe que deveria ter entrado para o ramo dos calçados quando moço. "Eu me arrependo um pouco", contou ele, pois vários de seus amigos da juventude ficaram milionários fabricando calçados. Até na nova zona fabril de Lishui, onde quase tudo ainda estava em construção, a galinha do vizinho já era mais gorda. O vizinho do Chefe Wang era a Geley Materiais Elétricos e Cia., cujo dono começara como humilde fabricante de botões em Qiatou antes de mudar para coisas maiores e melhores. Hoje a Geley emprega centenas de operários, e a nova fábrica produz tomadas elétricas de plástico que custam 3 dólares cada uma.
O Chefe Wang e o Chefe Gao deram à sua empresa o nome inglês de Lishui Yashun Underdress Fittings Industry Co., Ltd. (Yashun Indústria de Peças para Lingerie de Lishui e Cia. Ltda.). Criar a marca foi instantâneo: por menos de 800 dólares, um designer de Wenzhou fez o logotipo, os mostruários, o website e os cartões de visita. Tudo em rosa-choque. O site e os mostruários continham fotos de voluptuosas ocidentais de sutiã. Os cartões de visita traziam um logotipo.
O que será que esse desenho representa, pensei comigo. Um pássaro voando? Um coração? Ou serão dois? "Não sei o que significa", adiantou-se o Chefe Wang. "Não importa, contanto que seja bonito. O designer provavelmente se inspirou em outra empresa."Três dias depois de queimar os fogos, o Chefe Wang afixou no portão da fábrica um cartaz manuscrito anunciando vagas.1. Idade: 18 a 35, ensino médio2. Boa saúde, boa qualidade3. Atento à higiene, disposto a vestir a camisa da empresa e trabalhar duro.
Por toda a Zona de Desenvolvimento de Lishui, jovens perambulavam em bandos, lendo os cartazes que as fábricas haviam afixado no feriado do Ano-Novo. Na feira de empregos da região, migrantes fitavam um painel digital com listas tão concisas que pareciam em código:
"Caixas, mulheres, 1,66 metro ou mais"
"Dispostos a vestir a camisa da empresa e a trabalhar duro, 25 a 45 yuans por dia, ensino médio"
"Homens, 35 yuans; mulheres, 25 yuans"
"Trabalhadores medíocres e nativos de Jiangxi e Sichuan não precisam candidatar-se"
Sem eufemismos, sem desculpas. Se uma empresa preferia que suas empregadas fossem altas, pedia mulheres altas. Se tinha preconceito contra uma região, azar de seus nativos. Em uma fábrica chamada Jinchao, o guarda despachava todos os candidatos vindos de Guinzhou, a província mais pobre da China. Quando perguntei a razão ao gerente, ele respondeu: "Por aqui, muitos delinqüentes são de Guinzhou". Na Yashun, o pai do Chefe Gao encarregava-se das contratações. Assisti a uma entrevista de emprego na qual ele perguntou a idade de uma candidata. A mulher replicou: "O senhor quer saber a minha idade verdadeira ou a da carteira de identidade?" Ela explicou que, sete anos antes, quando deixara a casa dos pais, falsificara a identidade porque era jovem demais. O homem ofereceu-lhe um emprego. Comentou comigo que uma mulher assim devia gostar mesmo de trabalhar.
Na China o salário mínimo varia entre as regiões. Em Lishui é de 40 centavos de dólar por hora. A Yashun oferecia empregos com a mais baixa remuneração, e mesmo assim choviam candidatos. Não havia escassez de mão-de-obra sem qualificação. O pai do Chefe Gao tinha uma pilha de argolas de sutiã em sua mesa para mostrar o que a fábrica produzia. No segundo dia, depois de finalmente preenchida a cobiçada lista dos operários, ele disse a uma candidata que o nome dela ficaria na lista de espera. "Troque meu nome com o de alguém", pediu ela. Ele recusou-se: "Não posso fazer isso. Já basta. Temos 19".
A mulher tinha cabelo cortado rente e olhos vivos. Pelo documento, tinha 17 anos. Ela inclinou-se em direção à mesa e mexeu nas argolas de sutiã, como se fossem peças de um jogo que ela estivesse decidida a vencer.
- Troque um nome - ela pediu, com insistência.
- Que diferença faz?- Não posso fazer isso.
- Eu teria vindo ontem se soubesse.
- Garanto que seu nome será o primeiro na lista de espera.
Veja, até escrevi 'boa moça' na frente do seu nome.
Mas ela não desistia. Por fim, depois de dez minutos de súplicas, ele acrescentou seu nome - mas aí a superstição de Wenzhou atacou. "Agora são ershi", disse ele. "Vinte. Soa mal essa palavra, parece esi, morrer de fome. Por isso vou ter de acrescentar mais um nome." A mulher agradeceu-lhe e dirigiu-se para a porta. "Mas, se o Chefe disser que 21 é demais, terá de ser 19", avisou ele. A mulher voltou até a mesa. "Ponha o meu nome mais para cima na lista", disse.
Cinco minutos depois, o nome dela estava bem no meio da lista. Quando a candidata saiu, o homem exclamou, admirado: "Essa moça sabe conseguir as coisas!" Perceberam depois que na verdade ela usara a carteira de identidade de sua irmã mais velha. Aquela moça que sabia conseguir as coisas mal completara 15 anos.
Até as fontes fazem música
Na primeira vez em que estive na fábrica, a rua em frente era de terra e a maioria dos outdoors da Zona de Desenvolvimento estava sem anúncio. Na minha segunda visita, seis semanas depois, a imobiliária Yintai pusera um anúncio num deles. A rua estava sendo pavimentada na minha terceira visita. Na quarta, vi uma mulher enfiar a roda dianteira esquerda de seu Honda num bueiro sem tampa. As tampas de bueiro estavam instaladas por ocasião da minha quinta visita. Uma clínica médica apareceu antes da sexta visita. Calçadas e iluminação de rua, na sétima. Árvores e pontos de ônibus, na oitava.
A produção industrial não espera pela infra-estrutura acabada, e a vida diária também não. Nas zonas de desenvolvimento chinesas, os canteiros de obra são um espaço público; por isso a rua da fábrica era cenário dos mais diversos entretenimentos improvisados. Uma semana, a tradicional trupe de ópera Wu montou um palco no meio da via. Tempos depois, foi a vez de um parque de diversões itinerante. Todo mês, o governo local estacionava um caminhão num cruzamento, abria uma tela branca e exibia dois longas-metragens de graça. Ali perto, uma imobiliária usou seu canteiro de obras para patrocinar o Concurso de Karaokê dos Operários do Som Harmonioso. Representantes das fábricas locais competiram, assistidos por mais de 12 mil operários. O vencedor foi um vigia de uma fábrica de roupas e edredons de plumas. Ele interpretou uma canção de amor popular, O Coração de uma Mulher.
Certa semana chegou à cidade a Trupe Acrobática e Artística Estrela Vermelha. Seu decrépito caminhão tinha painéis laterais que se abriam e revelavam um toldo com fotos de mulheres em trajes exíguos e slogans chamativos ("Paixão! Perfeição!"). A carroceria do caminhão convertia-se em bilheteria; atrás, montavam uma tenda. A entrada custava 60 centavos de dólar, e 160 ingressos foram vendidos - quase todos para homens. Membros da trupe cantavam e encenavam esquetes; um homem representava uma comovente história de um migrante preso por furto. Outro tirava o ombro da articulação e fazia contorcionismos no palco enquanto seu irmão passava o chapéu. No final, uma mulher fazia strip-tease.
Era tudo ilegal. Números de nudismo são proibidos na China comunista, e a trupe não era registrada. Nenhum deles tinha sequer uma carta de motorista. Eram uma família numerosa da província de Henan, e vinham chutados para o sul. Haviam sido expulsos, sucessivamente, de Nanjing, Hangzhou e Yongkang. Quando perguntei a Liu Changfu, o líder da trupe, por que incluíam nudez, ele disse: "Antes de comprar o ingresso, muitos costumam perguntar se temos algum 'entretenimento liberal'. Temos de poder dizer sim". A tarefa do strip-tease estava a cargo da esposa do primo mais distante. Liu me disse que eles tinham lucro contanto que vivessem em trânsito, e sempre havia outra zona de desenvolvimento em construção mais adiante.
Lishui dependia tanto quanto os artistas itinerantes dos canteiros de obras. As cidades chinesas não têm permissão para levantar recursos com títulos da dívida municipal ou elevação exagerada de impostos, e por isso recorrem à propriedade da terra. Legalmente, todas as terras pertencem à nação, mas os governos locais podem aprovar a venda de direitos de uso da terra - o que há de mais próximo à propriedade privada. As cidades adquirem as terras suburbanas dos camponeses a preços estipulados em níveis artificialmente baixos, aprovam-nas para desenvolvimento e as vendem com lucro no mercado aberto. A estimativa é de que entre 40% e 60% das receitas municipais em toda a China venham por esse meio.
Novos complexos de apartamentos estavam subindo por toda a Lishui, e um dos maiores era o condomínio Jiangbin. Os 6,6 hectares haviam pertencido ao vilarejo de Xiahe, mas em 2000 o governo municipal comprou os direitos de uso da terra por 1 milhão de dólares. Três anos depois, Lishui passou as terras para a imobiliária Yintai por 37 milhões de dólares. Como a corrupção é endêmica no ramo imobiliário chinês, o preço verdadeiro pode ter sido até maior.
Em um meio como esse, todos apostam no crescimento. A maior parte do vultoso investimento da cidade em infra-estrutura veio de empréstimos de bancos estatais, que também emprestaram às construtoras - a Yintai fizera um empréstimo de 28 milhões de dólares para seu empreendimento de Jiangbin. Se o mercado imobiliário esfriasse, todo o sistema emperraria; por isso recentemente o governo central instituíra novas leis para desacelerar essas expansões. Mas o dinheiro continuou a jorrar - nos últimos cinco anos, o preço médio de um apartamento em Lishui sextuplicou.
No papel isso parece insustentável, mas o ambiente econômico e social chinês não tem igual no mundo. As leis do ramo imobiliário são parciais ao governo, e a migração e a economia exportadora criam uma demanda constante por cidades em expansão. Depois dos tempos difíceis do século 20, o cidadão médio está disposto a tolerar injustiças contanto que seu padrão de vida melhore. Em Jiangbin, conheci Zhang Qiaoping, cuja família outrora cultivara um décimo de hectare no local. O governo pagou-lhe 15 000 dólares por um terreno que valia pelo menos 200 000. Zhang não gostou, mas também não protestou. Em vez disso, investiu numa pequena loja vizinha ao terreno. A maioria dos fregueses era operária da construção. O dinheiro que pingava para quem estava por baixo não era muito, mas Zhang conseguiu o suficiente para sustentar a família.Alguns camponeses até chegaram ao topo. Yintai é propriedade da família Ji, cujo patriarca fora agricultor antes de se ocupar de pequenos trabalhos de construção na década de 1980. Por fim ele entrou para o ramo imobiliário, e hoje seus três filhos ajudam a gerir a empresa. Conheci o caçula, Ji Shengjun, na boate que ele possui. Ladeado por seu guarda-costas, o homem de 26 anos bebia uísque escocês Matisse com chá verde e ouvia pacientemente os rogos de uma mocinha atraente. Ji usava calças Prada e camisa Versace, além de um relógio Piaget de 10 000 dólares. Contou-me que a Yintai esperava lucrar 19 milhões de dólares com Jiangbin. O complexo de apartamentos teria uma fonte musical maior que um campo de futebol. A mocinha implorava a Ji que a ajudasse a obter visto para ir a Portugal.
Criança em negociação
Boa parte da economia na China depende de camponeses que deixaram a terra, e essa dependência também existia na fábrica Yashun. O Chefe Wang e o Chefe Gao provêm de famílias de rizicultores. O Mecânico Luo nasceu numa plantação de algodão. Um ex-plantador de laranjas trabalhava na prensa de furar metais, e o químico cultivara chá, tabaco e amendoim. As mulheres da linha de montagem entendiam de trigo e soja. O contador vinha da região das pêras. Apesar das variadas ocupações rurais anteriores, agora todos se concentravam na produção de duas coisas: fios metálicos de armação e argolas de sutiã que pesavam meio grama.
Até os chefes se dispunham a trabalhar duro como camponeses, e passavam longas horas diárias no chão de fábrica. Cada um investira todas as economias no negócio - em dinheiro vivo. Só o Chefe Gao pedira um pequeno empréstimo a um banco. Não havia diretoria administrativa, cronograma de investimento, planejamento empresarial. Começaram a produzir sem um único cliente garantido. Em março e abril, o Chefe Wang visitara fábricas de montagem de sutiãs levando presentes: cigarros Chunghwa, álcool Wuliangye, peixes amarelos chamados corcorocas (apreciadíssimos em Wenzhou). Mas demoravam a chegar pedidos de potenciais clientes, e no verão a fábrica tinha mais de 1 milhão de argolas de sutiã em estoque. A maioria dos trabalhadores não-especializados foi dispensada, e o salário dos técnicos foi reduzido à metade.
Se de início os chefes agiram com notável rapidez, agora pagavam pela falta de planejamento. Essas fraquezas institucionais estão-se evidenciando mais nos negócios chineses por causa do ambiente de competição crescente. E a próxima etapa econômica desejada pela nação - produtos inovadores e a criação de marcas nacionais - exigirá mais criatividade e organização lógica.
Na Yashun, apenas o Chefe Gao cursara uma escola de comércio. O Mecânico Luo, o empregado mais importante, nem sequer concluíra o ensino elementar. Quando começara a trabalhar em período integral, aos 14 anos, era quase analfabeto, mas estudara à noite em Shenzhen. Cursos noturnos são comuns nas cidades chinesas de crescimento veloz, e Luo finalmente conseguiu seu diploma da escola secundária. Também adquiriu qualificações técnicas que lhe permitiram trabalhar com a Máquina, e ao longo dos anos fora aliciado três vezes por outras fábricas de argolas de sutiã. No processo, seu salário subira para 760 dólares mensais, remuneração alta na China. Como é comum na concorrência ruinosa da indústria chinesa, ele deixou cada um dos empregos sem aviso prévio. Simplesmente pediu alguns dias de férias, mudou o número do seu celular e nunca mais apareceu.
Quando a Yashun enfrentou dificuldades, os chefes reduziram à metade o salário do Mecânico Luo, e depois pararam de lhe pagar. Perversamente, isso refletia o valor desse empregado - ele era o único que entendia da Máquina. Durante crises, algumas fábricas chinesas pequenas param de pagar os salários, pois os empregados não partem enquanto lhes deverem dinheiro. A crise abateu-se em julho, quando a mulher do Mecânico Luo estava prestes a dar à luz. Ela morava na cidade natal de Luo, na província de Hubei, e ele me disse que seria seu segundo filho.
Os chefes não lhe deram licença para viajar. Em 27 de julho, o bebê nasceu de cesariana, e o Mecânico Luo declarou que precisava voltar de qualquer jeito para ajudar a esposa enquanto ela se recuperava da cirurgia. Finalmente concordaram, mas não quiseram pagar os salários atrasados. Naquela noite, quando levei Luo para comemorar com um jantar, as negociações ainda estavam em andamento. No final, os chefes pagaram-lhe um terço do que lhe deviam, e ele prometeu voltar em uma semana.
Depois, mãe e bebê viajaram 21 horas de ônibus até Lishui. Dividiam o quarto no alojamento da fábrica com o Mecânico Luo, que me apresentou o filho, todo orgulhoso. Perguntei como estava passando o irmão do bebê. Presumi que ele ficara no vilarejo com os avós. Mas vi consternação no rosto do homem e temi que algo terrível houvesse acontecido. "Este é nosso primeiro filho, na verdade", disse, baixando a voz. "Quando o Chefe Wang e o Chefe Gao me contrataram, falei que já tinha um filho para poder pedir salário maior. Para você, eu não queria mentir, mas eles estavam presentes quando conversamos."
Passados dois meses, a mulher levou o bebê de volta à sua província natal, Guizhou. Na estação do trem em Guiyang, duas mulheres aproximaram-se dela e ofereceram-lhe carona. Levaram-na até uma minivan, onde havia dois homens. Ao saírem da cidade, ela notou um cheiro forte de produto químico e sentiu-se desorientada. A próxima coisa de que se lembra é de ter sido roubada: 120 dólares em dinheiro, seu celular e seus brincos. Depois disso, o bebê ficou anormalmente sonolento, e a mãe telefonou em pânico para o Mecânico Luo. Ele dissera-lhe para dar banho na criança imediatamente. Felizmente, desde então, o bebê parece sadio. Ainda não completara 4 meses e já vivera numa fábrica, servira de peão em negociações salariais, fora drogado e assaltado. O Mecânico Luo dera-lhe o nome de Wen, "culto", pois sonhava ver o filho tornar-se um homem instruído.
Diferença de 3 dólares
A garota de 15 anos contratada pela fábrica abandonara os estudos depois da sétima série porque sua família precisava de dinheiro. Ninguém na fábrica parecia incomodar-se por ela ter usado o nome da irmã mais velha. Na China, onde a idade mínima legal para trabalhar é 16 anos, é comum trabalhadores registrarem-se com documento falso. A irmã acabou indo trabalhar lá também, assim como o pai. O sobrenome deles era Tao, e haviam migrado da província de Anhui. Em contraste com a maioria dos empregados, não moravam no alojamento, e sim num quarto alugado perto da fábrica. Nos meses de verão, a fábrica beirou a falência, os Tao raras vezes foram chamados para trabalhar. Mas por fim a corte feita pelo Chefe Wang aos clientes começou a compensar. Em agosto, a fábrica tinha cinco compradores constantes. Em setembro, 11 meses depois de a fábrica ter sido projetada, obteve seu primeiro lucro mensal. Em outubro, os negócios estavam de vento em popa, e os Tao trabalhavam longas horas diárias.
A irmã mais velha classificava argolas na linha de montagem da Máquina, e a de 15 anos, Yufeng, manejava os fios metálicos. Punha os fios curvos numa espiral que era mandada para um aquecedor industrial. Era trabalho pago por peça, e em um dia produtivo Yufeng podia acabar 30 mil fios, recebendo 7,50 dólares. Ela era rápida, confiável e segura de si. Enfrentava o Chefe Wang como ninguém. Uma noite, quando uma colega comemorou seu 16o aniversário, Yufeng usou a ocasião para forçar seu supervisor a beber. Ela ia tomando Sprite e incitando o homem a entornar cerveja Double Deer, aos gritos de: "Beba! Beba!" Pediu a mim e aos outros homens à mesa: "Brindem a ele! Quero que fique bêbado, assim não precisarei trabalhar duro amanhã!"
A exemplo da irmã, Yufeng entregava aos pais tudo o que ganhava. Seu sonho era um dia abrir uma fábrica de calçados. Disse-me que, se fosse bem-sucedida, construiria uma casa de três andares no vilarejo de seus avós. Quando lhe perguntei sobre os avós, ela ficou de olhos marejados. Não perguntei mais.
Em novembro, a Máquina estava produzindo 100 mil argolas por dia, e os chefes haviam instalado uma linha de montagem maior para os fios metálicos internos. Porém, como todos em Lishui, eles haviam apostado no crescimento rápido, e esperavam aumentar a força de trabalho para 60 empregados no fim do primeiro ano. Só tinham 20 por enquanto, e o prédio era três vezes maior que o necessário. "Ainda é muito cedo", Wang resmungou quando perguntei sobre o desenvolvimento de Lishui. "Toda a vez que precisamos de alguma peça ou de qualquer coisa para a Máquina, temos de ir até Wenzhou."
Naquele mês os chefes decidiram transferir a fábrica. Resolveram de supetão, sem consultar o Mecânico Luo ou qualquer outro. Gao encontrou dois prédios disponíveis nos pântanos ao norte de Wenzhou. Foram consultar o especialista em feng shui. Seu conselho foi inequívoco: 28 de novembro era também o oitavo dia do mês lunar, e não há nada melhor que dois números 8. A maioria dos empregados decidiu mudar junto com a fábrica. Mas para os Tao a situação se complicou. A mãe tinha uma pequena mercearia nas proximidades, e o filho mais novo cursava uma escola secundária local. Se o pai e as filhas mantivessem seus empregos, a família dividiria-se. Na fábrica, a decisão virou assunto de debates diários.- Você, a esta altura, já deveria ser independente - disse o Mecânico Luo a Yufeng durante um almoço.
- Você não tem conta em banco, tem?
- Não - respondeu ela.
- Ainda entrego todo o meu dinheiro aos meus pais. Eles precisam da minha ajuda.
- Ajudará mais se você for independente.
Depois caçoou dela, dizendo que saíra de casa com apenas 6 dólares no bolso quando garoto. Pelo modo como falava, parecia que Yufeng era apenas mais uma dessas meninas superprotegidas que trabalham 50 horas por semana numa linha de montagem. Mas o pai não quis deixar a decisão para as filhas. Fez pé firme e disse que partiriam juntos - mas só se o salário fosse negociado.
Na noite da véspera da mudança, os chefes finalmente ofereceram um aumento. O pai pediu mais; os chefes relutaram. Ninguém queria conversar face a face; por isso o Mecânico Luo levava as mensagens de um ao outro. Às 8 horas ele foi ao quarto de paredes de barro dos Tao. As moças saíram; os homens acenderam cigarros West Lake. O pai disse: "Não estou disposto a mudar se eles não fizerem valer a pena". "Eu sei", replicou o Mecânico Luo. "Eu também não estou com disposição para treinar novos empregados." A mãe opinou: "Talvez seja melhor mandá-las trabalhar numa fábrica de calçados."
Ele exigiu o mesmo salário para todos: 127 dólares garantidos por mês mais as horas extras e 6 dólares de ajuda de custo. O Mecânico Luo levou o recado aos chefes, que cortaram a ajuda de custo pela metade, uma diferença de 3 dólares. O pai não deu resposta, e a oferta continuava na mesa quando a noite terminou.
Um bom futuro à espera
Naquele outono, Lishuy solicitou o acréscimo de 35 quilômetros quadrados para a Zona de Desenvolvimento. O progresso era a nova realidade. A expansão demandaria um investimento de quase 900 milhões de dólares, a maior parte proveniente de empréstimos bancários. Planejavam dobrar a população da cidade até 2020. Para atender à crescente demanda por energia, estava sendo construída a represa de Tankeng, nas montanhas ao sul de Lishui. Por isso, 50 mil pessoas estavam sendo realocadas de dez cidades e 80 vilarejos. Assisti à evacuação final de Beishan, a maior cidade, em 25 de outubro de 2005 - data auspiciosa, segundo os especialistas em feng shui. Havia dias propícios para tudo, até para abandonar a cidade natal. As famílias abarrotaram caminhões basculantes com sua mobília e os descarregaram em oito novas comunidades ainda em construção. Em Youzhou, Chen Quiaomei contou-me que tivera dificuldade para encontrar seu apartamento, ainda sem janelas. "Parecem todos iguais!", reclamou ela.
Quando conversei com o diretor Wang sobre os planos de expandir a zona fabril de Lishui, ele admitiu que estava cada vez mais difícil obter aprovação para projetos assim. O governo central receava uma bolha no mercado imobiliário, mas ele, Wang, continuava confiante. "Estamos propondo uma área de desenvolvimento onde a terra não é boa para a agricultura", explicou.
Na parede de seu escritório havia um mapa da expansão proposta: futuras estradas, quarteirões industriais, rede de água. "Teremos de remover mais de 400 montanhas e montes", disse ele. Convidou-me a voltar em janeiro, quando seu filho estaria em casa, de férias. O filho daquele ex-condutor de tanque estava na Universidade de Auckland, estudando finanças internacionais.
Fantasmas da fábrica
Transferiram a fábrica de argolas de sutiã em um dia. Os chefes alugaram uma empilhadeira, quatro caminhões basculantes e sete homens. O Mecânico Luo desmontou a Máquina em três partes. As argolas de sutiã acabadas foram empacotadas em 94 caixas. Removeram tudo o que tinha algum valor, incluindo o carpete e as lâmpadas. Um ano antes, haviam encomendado portas de 10 dólares, e agora as tiravam dos gonzos.
Às 3 horas, as irmãs Tao chegaram de malas prontas. O pai tinha encontrado um emprego mais bem pago em uma fábrica próxima, que produzia couro sintético. Arranjara o trabalho dias antes, em segredo. Sua insistência em ficar com as filhas fora uma manobra da negociação. Não houve lágrimas no portão da fábrica. A última coisa que o pai disse foi: "Vocês precisam se agasalhar. Vai esfriar e, se não tiverem cuidado, vocês vão adoecer, terão de gastar dinheiro com remédios. Por isso, se agasalhem, ok? Adeus".
Dois dias depois, fui à Zona de Desenvolvimento, passando por fileiras de outdoors prontos: Amway, Estruturas de Aço Haishun, Ganchos de Aço Fengchang. A ex-fábrica Yashun estava destrancada. Lá dentro, argolas de sutiã juncavam o chão, entortadas, sujas, quebradas. Havia maços de cigarro amassados, rolos de fita adesiva usados. Um saco vazio de fraldas descartáveis. Um calendário de parede congelado em 22 de novembro. Um amuleto de boa sorte com o rosto de Mao Tsé-tung de um lado e um bodhisattva do outro. E em todo o alojamento, nas paredes brancas de gesso, as inscrições acumuladas por meses. Ao lado de sua cama, um operário listara números de combinações vencedoras de loteria. Outro escrevera: "Encontre o sucesso imediatamente". Outros grafitaram: "Reflita sobre o passado, leve em conta o futuro"; "Seja feliz a cada dia! Um novo dia começa a partir de agora!"; "Enfrente o futuro de peito aberto!"; "É possível ter sucesso em qualquer lugar. Juro que não voltarei para minha terra enquanto não for famoso".
Um vento frio batia nas janelas. Lá fora, era possível ouvir as fábricas vizinhas - o estrépito da produção de vidro, o estertor de moldes de plástico, o silvo pneumático da produção de aquecedores de água. Mas não havia nem um único som humano, apenas as vozes silenciosas nas paredes da fábrica abandonada.
A China, em disparada, não quer saber de limites de velocidade. Cidades multiplicam-se pelo mapa do país, numa febre cartográfica contagiante. Um repórter e um fotógrafo registram meses desse frenesi empreendedor.
Às 14h30, os chefes começaram a projetar a fábrica. O prédio de três andares alugado estava perfeitamente vazio: paredes brancas, piso livre, porta da frente sem tranca. Entrada e saída à vontade. A mesma liberdade vista em todo o resto da Zona de Desenvolvimento Econômico de Lishui. Os prédios vizinhos também eram cascas vazias, e ladeavam uma rua de terra que apontava para uma rodovia inacabada. Painéis prateados para outdoors refletiam o céu, vazios, anunciando apenas a luz do Sol de fim de outubro.Wang Aiguo e Gao Xiaomeng tinham viajado 128 quilômetros desde Wenzhou, cidade na costa sudeste da China. Eram parentes, tio e sobrinho, e chegaram a Lishui para montar novo negócio. "Toda esta área acaba de ser aberta", explicou Gao quando o encontrei no portão da fábrica. "Wenzhou já foi assim, mas agora ali está muito caro, ainda mais para uma firma pequena. Um lugar como este hoje é melhor."No primeiro andar juntaram-se a nós um empreiteiro e seu ajudante. Não havia arquiteto nem desenhista, e ninguém trouxera régua ou fio de prumo. O Chefe Gao começou distribuindo cigarros da marca 555. Tinha 33 anos, cabelo à escovinha e um jeito nervoso que piorava quando seu tio estava por perto. Depois de todos acenderem seus cigarros, o moço pegou caneta e um pedaço de papel em sua bolsa a tiracolo.
Primeiro, desenhou as paredes exteriores da sala. Depois, começou a projetar; cada traço representava uma parede a ser instalada, e a fábrica começou a tomar forma diante dos nossos olhos. Desenhou duas linhas no canto sudoeste: a futura sala das máquinas. Contíguo a ela, um laboratório de química, seguido de um depósito e uma sala das máquinas secundária. O Chefe Wang, o tio, examinou a página e calmamente decretou: "Não precisamos dessa sala".Conferenciaram e resolveram riscar a sala. Em 27 minutos haviam concluído o projeto do térreo. Passamos ao andar de cima. Mais cigarros. O Chefe Gao virou o papel. Em mais 23 minutos, projetaram um escritório, um corredor e três salas de visita para os gerentes da fábrica. No andar de cima, os dormitórios dos trabalhadores tomaram-lhes mais 14 minutos. Ao todo, mapearam uma fábrica de 2 mil metros quadrados, de ponta a ponta, em uma hora e quatro minutos. Gao entregou o pedaço de papel ao empreiteiro. O homem perguntou para quando queriam o orçamento."Que tal hoje à tarde?" O empreiteiro olhou o relógio. Eram 15h48. "Não dá para fazer tão rápido", rebateu. "Tudo bem; então amanhã de manhã", conformou-se o Chefe Gao.Discutiram sobre o material: tinta, cimento, areia, blocos de concreto de cinza. "Queremos as portas de 10 dólares", o Chefe Wang avisou o empreiteiro, que era natural de Lishui. "E não tente levar vantagem usando material mais barato. Faça um bom trabalho agora, e nós contrataremos você de novo. É assim que se ganha dinheiro em Wenzhou. Entendeu?"
Um mar de comodidades
A livraria do aeroporto de Wenzhou tem no estoque um livro intitulado Você Não Entende Realmente o Povo de Wenzhou. Na mesma prateleira encontramos: O Temido Povo de Wenzhou; Coletânea dos Segredos do Povo de Wenzhou para Ganhar Dinheiro; e As Jóias do Oriente: as Histórias Comerciais de 50 Empresários de Wenzhou. Os chineses andam fascinados por essa parte da província de Zhejiang, e a imprensa local contribui para a lenda. A revista Fortune Weekly de Wenzhou publicou um perfil dos milionários locais. Uma das perguntas era: se você fosse forçado a escolher entre seu negócio e sua família, com qual ficaria? Quase 60% escolheram o negócio e 20% a família. O restante permaneceu indeciso.Desde o princípio, certo desespero impulsionou a tradição empresarial de Wenzhou. A região tinha pouco solo cultivável, e seu terreno montanhoso era obstáculo a boas estradas para o interior. Com poucas opções, os habitantes recorreram ao mar, e, no século 17, período final da dinastia Ming, já tinham desenvolvido sólida cultura comercial. Mas perderam o elã após 1949, quando os comunistas tomaram o poder, cortaram as ligações marítimas com o exterior e extinguiram a iniciativa privada. Mesmo no começo da década de 1980, quando as reformas de livre mercado de Deng Xiaoping começaram a vingar, Wenzhou saiu em desvantagem. Seus habitantes não eram instruídos como os de Pequim, e não atraíram o investimento estrangeiro de Xangai. Quando o governo criou a primeira Zona Econômica Especial, com comércio e incentivos fiscais destinados a fomentar o crescimento, escolheu Shenzhen, próximo a Hong Kong.Mas Wenzhou possuía um inestimável capital: o instinto comercial nativo. Famílias abriram minúsculas oficinas, muitas com menos de 12 trabalhadores, para produzir mercadorias simples. Com o tempo, as oficinas prosperaram e transformaram-se em fábricas, e Wenzhou passou a dominar certos ramos de baixa tecnologia. Hoje, um quarto dos calçados comprados na China provém de Wenzhou. A cidade fabrica 70% dos isqueiros usados no mundo. Mais de 90% da economia de Wenzhou é privada.
O Modelo Wenzhou, como se tornou conhecido, difundiu-se por toda a província meridional de Zhejiang. Embora quase 80% de todos os empresários de Zhejiang tenham apenas oito anos ou menos de educação formal, a província tornou-se a mais rica da China pela maioria dos indicadores econômicos. A renda per capita tanto na zona rural como na urbana é maior que a das demais províncias chinesas (excluindo as cidades com administração especial, como Xangai e Pequim). Zhejiang reflete o milagre econômico chinês: uma nação pobre e predominantemente rural que deu um jeito de tornar-se o mais dinâmico centro fabril do mundo.Ao longo de um ano, estive várias vezes em Zhejiang, viajando pela província num carro alugado em Wenzhou. Assim como um peregrino faz sua jornada pela Espanha, parando em santuários de santos sem renome, passei pela terra natal de produtos tão corriqueiros que nunca indagamos de onde vieram. Do aeroporto, seguindo para o sul pelo litoral, comecei pelas dobradiças. Naquele trecho de estrada, a maioria dos outdoors anunciava as mais variadas versões da peça. Um quilômetro e meio depois, os anúncios eram sobre plugues e adaptadores elétricos. Cheguei então a uma área de interruptores, seguida por uma de lâmpadas fluorescentes e por fim uma de torneiras.Mais para o interior da província, os santuários tornavam-se mais elaborados. Em Qiaotou, parei para admirar uma estátua prateada de 6 metros de altura erigida pelos anciões da cidade: um botão alado. A população de Qiaotou não passa de 64 mil, mas 380 fábricas produzem ali mais de 70% dos botões de roupa fabricados na China. Em Wuyi, perguntei a alguns circunstantes qual era o produto local. Um homem enfiou a mão no bolso e tirou três cartas de baralho: damas, todas elas. A cidade fabrica mais de 1 bilhão de baralhos por ano. O município de Datang produz um terço das meias do mundo. Songxia fabrica 350 milhões de guarda-chuvas por ano. Raquetes de tênis de mesa vêm de Shangguan; Fenshui produz canetas; Xiaxie faz brinquedos de playground. E 40% das gravatas do mundo saem de Shengzhou.
Tudo é vendido em uma cidade chamada Yiwu. Para o peregrino de Zhejiang, essa é a terra prometida. O slogan de Yiwu é: "Um mar de comodidades, o paraíso das compras". Yiwu é um lugar ermo a 161 quilômetros da costa, mas recebe comerciantes do mundo todo que ali vão comprar no atacado. Há o distrito dos lenços, um mercado de sacolas plásticas, uma avenida onde todas as lojas vendem elásticos. Quando você não agüentar mais ver botões, pode dar uma volta pela rua do Zíper Profissional Binwang. A International Trade City, em Yiwu, uma galeria comercial, tem mais de 30 mil quiosques - se você passar um minuto em cada um, oito horas por dia, irá embora dois meses depois. Yiwu atrai tantos negociantes do Oriente Médio que um bairro abriga 23 grandes restaurantes árabes e uma padaria libanesa. Jantei no Arbeer, restaurante curdo, com um negociante do norte do Iraque. Ele estava comprando jeans e lâmpadas elétricas.No passado, Lishui era a única dentre as principais cidades de Zhejiang fora da rota dos peregrinos. Ela fica no alto das montanhas, onde o rio Ou é raso demais para o tráfego de embarcações grandes. Um morador chamou-a de o "Tibet de Zhejiang". Entendi sua mensagem: naquela paisagem industrial, Lishui era a última fronteira. Era a cidade mais pobre da rica província chinesa, mas a nova rodovia estava quase concluída, e os investidores estavam chegando rápido.
A memória de liu hongwei
Três meses depois de projetarem a fábrica, o Chefe Gao e o Chefe Wang testaram o equipamento. Desde minha primeira visita, haviam aliciado meia dúzia de operários especializados de outra fábrica do sul da China e instalado uma linha de montagem. Uma máquina de 15 metros de comprimento espreitava carrancuda na sala do canto: 5 443 quilos de aço pintado de verde-mar.
O troço rugiu quando o técnico encarregado acionou o interruptor. Bicos de gás zumbiram sob belas chamas azuladas. Uma esteira de aço inoxidável deu um arranco e avançou. O painel digital acompanhava a temperatura que subia: 200 graus Celsius, 300 graus, 400. Chegou a 474, depois caiu. Precisava chegar a 500 para a produção começar. Mas não avançava."Talvez seja porque aqui é mais frio que em Guangdong", disse o técnico. Seu nome era Luo Shouyun, mas todos o chamavam de Mecânico Luo. Ele calçou luvas à prova de fogo e tentou abrir a porta de um dos fornos da máquina. Mas a maçaneta derreteu em sua mão. Ele a soltou, xingando, e a peça de metal incandescente ficou no chão, sibilando como uma cobra zangada. "Mei shir", disse o Chefe Wang. "Tudo bem."O Mecânico Luo remexeu na caixa de controle. Especulou que os botijões de gás natural talvez estivessem frios demais. Os homens ajustaram as válvulas e começaram a balançar os volumosos tubos metálicos. A temperatura não subiu. Sacudiram mais forte os tubos, e nada. Alguém foi buscar uma escada e água fervendo.
O Chefe Gao parecia mais alvoroçado que o habitual. Nunca havia instalado uma linha de montagem tão grande. Mais de uma década antes, começara sua primeira oficina na periferia de Wenzhou. Com seus pais e duas irmãs, produzia tecido para forro de cós de calças baratas. Inicialmente os lucros foram de 50%, e a oficina cresceu sem parar até brotarem no bairro mais de 20 outras firmas produtoras de forro de calça. As margens de lucro foram caindo, e o Chefe Gao desistiu. "Antigamente cada um tentava descobrir um produto que mais ninguém fabricava", explicou ele. "Mas agora tudo já está sendo produzido por alguém na China."Esse é um ponto fraco do Modelo de Wenzhou. Os empreendedores produzem mercadorias que requerem pouco capital e baixa tecnologia, e isso facilita aos vizinhos entrar no ramo. O Chefe Wang, o tio, começara assim. Antes fabricava fio de aço para armações de sutiãs, e seus lucros foram caindo. Quando os dois homens juntaram as forças, decidiram continuar a fabricar os fios metálicos, mas também descobrir um produto principal mais lucrativo.
Por sorte, o sutiã médio possui 12 componentes distintos. Cogitaram na linha, depois na renda, depois nos fechos. Avaliaram. Mas apenas quando chegaram em cima, nas minúsculas argolas em forma de 0 e 8 que ajustam as alças do sutiã, acharam o que procuravam.
Uma argola de sutiã é feita de aço revestido com náilon acetinado, e sua produção é um processo especializado. O principal equipamento é uma linha de montagem regulada por computador. Ela se divide em três estágios, e em cada um o objeto é aquecido a mais de 500 graus Celsius. Tais argolas eram produzidas na Europa, mas, no começo dos anos 1990, Taiwan dominou o mercado. Em meados daquela década, uma empresa da China continental chamada Daming importou uma dessas linhas de montagem.
Na época em que chegou ao continente, onde os custos de produção são muito menores, "a Máquina" praticamente fabricava dinheiro. O Chefe enriqueceu, e então um operário chamado Liu Hongwey teve uma idéia. Apesar de sua pouca instrução, Liu era um mecânico especializado e tinha intimidade com a Máquina. Ele memorizou a linha de montagem, peça por peça, e em segredo desenhou esquemas de todo o equipamento. Quando o desenho ficou pronto, ele entrou em contato com um segundo Chefe em uma empresa chamada Shangang Keji, na cidade de Shantou.
Em 1998, o Chefe Número 2 contratou Liu e levou seu desenho à Fábrica de Equipamentos Qingsui, em Guangzhou, que produziu a linha de montagem segundo as especificações. De início, a nova Máquina não funcionou - afinal de contas, ninguém tem memória perfeita. Mas dois meses de ajustes resolveram os problemas. A Shangang Keji começou a produzir argolas de sutiã, mas então Liu encontrou o Chefe Número 3 em uma empresa chamada Jinde. Cada vez que Liu trocava de patrão, pedia dinheiro por seus desenhos e por seu conhecimento. Acredita-se que ele possa ter faturado até 20 000 dólares.
Quase dois séculos depois, a sorte de Liu Hongwei acabou quando ele tentou oferecer seu know-how para o Chefe Número 4. Segundo um ex-colega, o Número 3 ofereceu um prêmio de 12 000 dólares para quem encontrasse Liu, e ele fugiu. "Sei que a Jinde estava procurando por ele, e que estavam bravos", disse Gu Hong, administrador de empresa de Qingsui que ajudara a construir a Máquina. "Mas ele sumiu."
A indústria também já tinha mudado. Nos cinco anos seguintes à reinvenção de Liu, o preço das argolas de sutiã caiu 60%. Hoje mais de 20 fábricas chinesas produzem esse artigo, e a Máquina está ao alcance de quem tiver 65 000 dólares. Antes, todos os principais fabricantes se concentravam no sul, mas agora o Chefe Gao e o Chefe Wang tinham planos de ser os primeiros fabricantes de argola em Zhejiang.
No dia em que testaram a Máquina, a temperatura recusou-se a subir mais, e os homens tiveram de revezar-se na escada, jogando sem parar baldes de água fervendo nos botijões de gás. Depois de quatro horas de testes, desistiram. No fim, o Mecânico Luo desmontou a Máquina, substituiu uma peça importante e aproximou mais os bicos de gás da linha de montagem. Isso levou quase duas semanas. Algumas partes da Máquina receberam ajustes improvisados com madeira compensada e arame. A maçaneta que derreteu não tornou a ser afixada.
"Os esquemas ainda não são muito bons", o Mecânico Luo explicou. Anos atrás, ele trabalhara com Liu Hongwei, e disse as mesmas coisas que ouvi de outros sobre o famoso larápio de tecnologia. Liu era alto, trapaceiro e da província de Sichuan. Achavam que talvez Liu não fosse seu nome verdadeiro, e nunca nenhuma pessoa tinha conhecido sua esposa ou filho. E, agora, ninguém tinha a mínima idéia de seu paradeiro.
Remover montanhas
O lema do governo para a Zona de Desenvolvimento Econômico de Lishui é: "Cada pessoa faz o trabalho de duas; o trabalho de dois dias é feito em um". Talvez seja um ideal muito modesto. De 2000 a 2005, a população da cidade passou de 160 mil para 250 mil habitantes, e o governo local investiu 8,8 bilhões de dólares em infra-estrutura na região sob seus cuidados - cinco vezes mais que a quantia gasta no meio século anterior. Em termos monetários, o que antes eram 50 dias de trabalho agora se fazia em um.
Nas três últimas décadas, a economia chinesa cresceu em média 10% ao ano. É impelida pela maior migração que o mundo já viu: estima-se que 140 milhões de chineses já tenham deixado a zona rural, e há previsão de que outros 45 milhões se juntem à força de trabalho urbana nos próximos cinco anos. A maioria foi para cidades industriais ao longo da costa, mas em anos recentes os migrantes têm sido crescentemente atraídos para cidades interioranas, onde ainda é menor a competição por emprego.
Essas cidades precisam crescer e atrair indústrias por conta própria, pois o governo central já não custeia nem orienta, como na antiga economia planejada. Uma estratégia comum é criar uma zona fabril: limpar uma área, vender terrenos a preços baixos e conceder incentivos fiscais aos investidores interessados. Em 2002 Lishui começou a construção de uma zona fabril, um lote de 14,5 quilômetros quadrados contíguo à orla sul da cidade. Em 2006, quase 200 fábricas atraíam 30 mil trabalhadores migrantes.
Esse crescimento inicial foi regido por Wang Lijiong, 48 anos, diretor da Zona de Desenvolvimento. Na juventude, o primeiro emprego de Wang fora numa fábrica de dinamite, antes de passar cinco anos dirigindo um tanque para o Exército de Libertação do Povo. Ao sair do Exército, ele foi trabalhar em um banco estatal e começou a ascender na burocracia do governo. Wang é cordial e franco, qualidades raras em autoridades chinesas. Disse-me que ainda se inspira em sua experiência militar. "Num tanque, vamos direto ao alvo", comparou ele. "Precisamos do espírito de persistência."
A zona de Lishui ocupa um terreno acidentado antes usado para cultivo. O Diretor Wang disse-me que aproximadamente mil camponeses haviam sido realocados, além de exatamente 108 montanhas e montes. "Rebaixamos os lugares altos e elevamos os baixos", explicou com simplicidade. Em uma de minhas viagens anteriores a Lishui eu vira uma elevação ser rebaixada. Havia 30 caminhões basculantes e 11 escavadeiras; os operários tinham acabado de rechear a colina com 8 981 quilos de dinamite. Aquele local viria a abrigar meia dúzia de indústrias químicas.
Um operário reparou em mim e aproximou-se. Trazia em cada mão uma sacola de compras barata, cheia de explosivos. Pôs as sacolas no chão com naturalidade e pediu: "O senhor levaria meu irmão mais novo para Nova York?"
Depois de uma década vivendo como estrangeiro na China, eu já estava acostumado a mudanças bruscas de assunto numa conversa, mas aquela abordagem me deixou mudo. Além disso, eu não conseguia tirar os olhos daquelas sacolas. O homem sorriu e disse: "Estou brincando. Mas ele quer mesmo ir para os Estados Unidos".
Ele apresentou-me a Mu Shiyou, o encarregado da detonação. Mu e eu andamos até a base do monte condenado, onde um emaranhado de fios ligava-se à dinamite empilhada. Ele emendou os fios formando uma única linha e a desenrolou enquanto nos afastávamos. A área fora evacuada. O silêncio era tanto que eu podia ouvir os pássaros acima de nós.
A caixa do detonador tinha dois comutadores rotulados: "Carrega" e "Explode". Ficamos atrás das rodas de lagarta de um trator estacionado. Um comando crepitou no walkie-talkie de Mu: "Carregar!" Ele acionou o comutador e sugeriu-me: "Vá até ali para ver melhor!" Contagem regressiva, outro comando, e ele acionou o segundo comutador. Tudo muito simples. Por um breve instante, antes de se ouvir qualquer som, uma teia de eletricidade bruxuleou por toda a encosta, como relâmpagos ao atingir a terra.
Vestir a camisa da empresa
Em 6 de fevereiro, meio mês depois de testar a Máquina, o Chefe Wang inaugurou oficialmente a fábrica queimando duas caixas de fogos de artifício. Pelo calendário lunar, era o oitavo dia do ano novo, e um especialista em feng shui aconselhara os proprietários a aproveitar o oito, número de sorte na China.
Como a maioria dos empresários de Wenzhou, o Chefe Wang era muito supersticioso. Falava com voz aguda, gaguejando um pouco e pestanejando rapidamente. Tinha 40 anos. No passado, sempre fabricara partes específicas de objetos: peças de encanamento, de campainha de bicicleta, de sutiãs. Hoje ele percebe que deveria ter entrado para o ramo dos calçados quando moço. "Eu me arrependo um pouco", contou ele, pois vários de seus amigos da juventude ficaram milionários fabricando calçados. Até na nova zona fabril de Lishui, onde quase tudo ainda estava em construção, a galinha do vizinho já era mais gorda. O vizinho do Chefe Wang era a Geley Materiais Elétricos e Cia., cujo dono começara como humilde fabricante de botões em Qiatou antes de mudar para coisas maiores e melhores. Hoje a Geley emprega centenas de operários, e a nova fábrica produz tomadas elétricas de plástico que custam 3 dólares cada uma.
O Chefe Wang e o Chefe Gao deram à sua empresa o nome inglês de Lishui Yashun Underdress Fittings Industry Co., Ltd. (Yashun Indústria de Peças para Lingerie de Lishui e Cia. Ltda.). Criar a marca foi instantâneo: por menos de 800 dólares, um designer de Wenzhou fez o logotipo, os mostruários, o website e os cartões de visita. Tudo em rosa-choque. O site e os mostruários continham fotos de voluptuosas ocidentais de sutiã. Os cartões de visita traziam um logotipo.
O que será que esse desenho representa, pensei comigo. Um pássaro voando? Um coração? Ou serão dois? "Não sei o que significa", adiantou-se o Chefe Wang. "Não importa, contanto que seja bonito. O designer provavelmente se inspirou em outra empresa."Três dias depois de queimar os fogos, o Chefe Wang afixou no portão da fábrica um cartaz manuscrito anunciando vagas.1. Idade: 18 a 35, ensino médio2. Boa saúde, boa qualidade3. Atento à higiene, disposto a vestir a camisa da empresa e trabalhar duro.
Por toda a Zona de Desenvolvimento de Lishui, jovens perambulavam em bandos, lendo os cartazes que as fábricas haviam afixado no feriado do Ano-Novo. Na feira de empregos da região, migrantes fitavam um painel digital com listas tão concisas que pareciam em código:
"Caixas, mulheres, 1,66 metro ou mais"
"Dispostos a vestir a camisa da empresa e a trabalhar duro, 25 a 45 yuans por dia, ensino médio"
"Homens, 35 yuans; mulheres, 25 yuans"
"Trabalhadores medíocres e nativos de Jiangxi e Sichuan não precisam candidatar-se"
Sem eufemismos, sem desculpas. Se uma empresa preferia que suas empregadas fossem altas, pedia mulheres altas. Se tinha preconceito contra uma região, azar de seus nativos. Em uma fábrica chamada Jinchao, o guarda despachava todos os candidatos vindos de Guinzhou, a província mais pobre da China. Quando perguntei a razão ao gerente, ele respondeu: "Por aqui, muitos delinqüentes são de Guinzhou". Na Yashun, o pai do Chefe Gao encarregava-se das contratações. Assisti a uma entrevista de emprego na qual ele perguntou a idade de uma candidata. A mulher replicou: "O senhor quer saber a minha idade verdadeira ou a da carteira de identidade?" Ela explicou que, sete anos antes, quando deixara a casa dos pais, falsificara a identidade porque era jovem demais. O homem ofereceu-lhe um emprego. Comentou comigo que uma mulher assim devia gostar mesmo de trabalhar.
Na China o salário mínimo varia entre as regiões. Em Lishui é de 40 centavos de dólar por hora. A Yashun oferecia empregos com a mais baixa remuneração, e mesmo assim choviam candidatos. Não havia escassez de mão-de-obra sem qualificação. O pai do Chefe Gao tinha uma pilha de argolas de sutiã em sua mesa para mostrar o que a fábrica produzia. No segundo dia, depois de finalmente preenchida a cobiçada lista dos operários, ele disse a uma candidata que o nome dela ficaria na lista de espera. "Troque meu nome com o de alguém", pediu ela. Ele recusou-se: "Não posso fazer isso. Já basta. Temos 19".
A mulher tinha cabelo cortado rente e olhos vivos. Pelo documento, tinha 17 anos. Ela inclinou-se em direção à mesa e mexeu nas argolas de sutiã, como se fossem peças de um jogo que ela estivesse decidida a vencer.
- Troque um nome - ela pediu, com insistência.
- Que diferença faz?- Não posso fazer isso.
- Eu teria vindo ontem se soubesse.
- Garanto que seu nome será o primeiro na lista de espera.
Veja, até escrevi 'boa moça' na frente do seu nome.
Mas ela não desistia. Por fim, depois de dez minutos de súplicas, ele acrescentou seu nome - mas aí a superstição de Wenzhou atacou. "Agora são ershi", disse ele. "Vinte. Soa mal essa palavra, parece esi, morrer de fome. Por isso vou ter de acrescentar mais um nome." A mulher agradeceu-lhe e dirigiu-se para a porta. "Mas, se o Chefe disser que 21 é demais, terá de ser 19", avisou ele. A mulher voltou até a mesa. "Ponha o meu nome mais para cima na lista", disse.
Cinco minutos depois, o nome dela estava bem no meio da lista. Quando a candidata saiu, o homem exclamou, admirado: "Essa moça sabe conseguir as coisas!" Perceberam depois que na verdade ela usara a carteira de identidade de sua irmã mais velha. Aquela moça que sabia conseguir as coisas mal completara 15 anos.
Até as fontes fazem música
Na primeira vez em que estive na fábrica, a rua em frente era de terra e a maioria dos outdoors da Zona de Desenvolvimento estava sem anúncio. Na minha segunda visita, seis semanas depois, a imobiliária Yintai pusera um anúncio num deles. A rua estava sendo pavimentada na minha terceira visita. Na quarta, vi uma mulher enfiar a roda dianteira esquerda de seu Honda num bueiro sem tampa. As tampas de bueiro estavam instaladas por ocasião da minha quinta visita. Uma clínica médica apareceu antes da sexta visita. Calçadas e iluminação de rua, na sétima. Árvores e pontos de ônibus, na oitava.
A produção industrial não espera pela infra-estrutura acabada, e a vida diária também não. Nas zonas de desenvolvimento chinesas, os canteiros de obra são um espaço público; por isso a rua da fábrica era cenário dos mais diversos entretenimentos improvisados. Uma semana, a tradicional trupe de ópera Wu montou um palco no meio da via. Tempos depois, foi a vez de um parque de diversões itinerante. Todo mês, o governo local estacionava um caminhão num cruzamento, abria uma tela branca e exibia dois longas-metragens de graça. Ali perto, uma imobiliária usou seu canteiro de obras para patrocinar o Concurso de Karaokê dos Operários do Som Harmonioso. Representantes das fábricas locais competiram, assistidos por mais de 12 mil operários. O vencedor foi um vigia de uma fábrica de roupas e edredons de plumas. Ele interpretou uma canção de amor popular, O Coração de uma Mulher.
Certa semana chegou à cidade a Trupe Acrobática e Artística Estrela Vermelha. Seu decrépito caminhão tinha painéis laterais que se abriam e revelavam um toldo com fotos de mulheres em trajes exíguos e slogans chamativos ("Paixão! Perfeição!"). A carroceria do caminhão convertia-se em bilheteria; atrás, montavam uma tenda. A entrada custava 60 centavos de dólar, e 160 ingressos foram vendidos - quase todos para homens. Membros da trupe cantavam e encenavam esquetes; um homem representava uma comovente história de um migrante preso por furto. Outro tirava o ombro da articulação e fazia contorcionismos no palco enquanto seu irmão passava o chapéu. No final, uma mulher fazia strip-tease.
Era tudo ilegal. Números de nudismo são proibidos na China comunista, e a trupe não era registrada. Nenhum deles tinha sequer uma carta de motorista. Eram uma família numerosa da província de Henan, e vinham chutados para o sul. Haviam sido expulsos, sucessivamente, de Nanjing, Hangzhou e Yongkang. Quando perguntei a Liu Changfu, o líder da trupe, por que incluíam nudez, ele disse: "Antes de comprar o ingresso, muitos costumam perguntar se temos algum 'entretenimento liberal'. Temos de poder dizer sim". A tarefa do strip-tease estava a cargo da esposa do primo mais distante. Liu me disse que eles tinham lucro contanto que vivessem em trânsito, e sempre havia outra zona de desenvolvimento em construção mais adiante.
Lishui dependia tanto quanto os artistas itinerantes dos canteiros de obras. As cidades chinesas não têm permissão para levantar recursos com títulos da dívida municipal ou elevação exagerada de impostos, e por isso recorrem à propriedade da terra. Legalmente, todas as terras pertencem à nação, mas os governos locais podem aprovar a venda de direitos de uso da terra - o que há de mais próximo à propriedade privada. As cidades adquirem as terras suburbanas dos camponeses a preços estipulados em níveis artificialmente baixos, aprovam-nas para desenvolvimento e as vendem com lucro no mercado aberto. A estimativa é de que entre 40% e 60% das receitas municipais em toda a China venham por esse meio.
Novos complexos de apartamentos estavam subindo por toda a Lishui, e um dos maiores era o condomínio Jiangbin. Os 6,6 hectares haviam pertencido ao vilarejo de Xiahe, mas em 2000 o governo municipal comprou os direitos de uso da terra por 1 milhão de dólares. Três anos depois, Lishui passou as terras para a imobiliária Yintai por 37 milhões de dólares. Como a corrupção é endêmica no ramo imobiliário chinês, o preço verdadeiro pode ter sido até maior.
Em um meio como esse, todos apostam no crescimento. A maior parte do vultoso investimento da cidade em infra-estrutura veio de empréstimos de bancos estatais, que também emprestaram às construtoras - a Yintai fizera um empréstimo de 28 milhões de dólares para seu empreendimento de Jiangbin. Se o mercado imobiliário esfriasse, todo o sistema emperraria; por isso recentemente o governo central instituíra novas leis para desacelerar essas expansões. Mas o dinheiro continuou a jorrar - nos últimos cinco anos, o preço médio de um apartamento em Lishui sextuplicou.
No papel isso parece insustentável, mas o ambiente econômico e social chinês não tem igual no mundo. As leis do ramo imobiliário são parciais ao governo, e a migração e a economia exportadora criam uma demanda constante por cidades em expansão. Depois dos tempos difíceis do século 20, o cidadão médio está disposto a tolerar injustiças contanto que seu padrão de vida melhore. Em Jiangbin, conheci Zhang Qiaoping, cuja família outrora cultivara um décimo de hectare no local. O governo pagou-lhe 15 000 dólares por um terreno que valia pelo menos 200 000. Zhang não gostou, mas também não protestou. Em vez disso, investiu numa pequena loja vizinha ao terreno. A maioria dos fregueses era operária da construção. O dinheiro que pingava para quem estava por baixo não era muito, mas Zhang conseguiu o suficiente para sustentar a família.Alguns camponeses até chegaram ao topo. Yintai é propriedade da família Ji, cujo patriarca fora agricultor antes de se ocupar de pequenos trabalhos de construção na década de 1980. Por fim ele entrou para o ramo imobiliário, e hoje seus três filhos ajudam a gerir a empresa. Conheci o caçula, Ji Shengjun, na boate que ele possui. Ladeado por seu guarda-costas, o homem de 26 anos bebia uísque escocês Matisse com chá verde e ouvia pacientemente os rogos de uma mocinha atraente. Ji usava calças Prada e camisa Versace, além de um relógio Piaget de 10 000 dólares. Contou-me que a Yintai esperava lucrar 19 milhões de dólares com Jiangbin. O complexo de apartamentos teria uma fonte musical maior que um campo de futebol. A mocinha implorava a Ji que a ajudasse a obter visto para ir a Portugal.
Criança em negociação
Boa parte da economia na China depende de camponeses que deixaram a terra, e essa dependência também existia na fábrica Yashun. O Chefe Wang e o Chefe Gao provêm de famílias de rizicultores. O Mecânico Luo nasceu numa plantação de algodão. Um ex-plantador de laranjas trabalhava na prensa de furar metais, e o químico cultivara chá, tabaco e amendoim. As mulheres da linha de montagem entendiam de trigo e soja. O contador vinha da região das pêras. Apesar das variadas ocupações rurais anteriores, agora todos se concentravam na produção de duas coisas: fios metálicos de armação e argolas de sutiã que pesavam meio grama.
Até os chefes se dispunham a trabalhar duro como camponeses, e passavam longas horas diárias no chão de fábrica. Cada um investira todas as economias no negócio - em dinheiro vivo. Só o Chefe Gao pedira um pequeno empréstimo a um banco. Não havia diretoria administrativa, cronograma de investimento, planejamento empresarial. Começaram a produzir sem um único cliente garantido. Em março e abril, o Chefe Wang visitara fábricas de montagem de sutiãs levando presentes: cigarros Chunghwa, álcool Wuliangye, peixes amarelos chamados corcorocas (apreciadíssimos em Wenzhou). Mas demoravam a chegar pedidos de potenciais clientes, e no verão a fábrica tinha mais de 1 milhão de argolas de sutiã em estoque. A maioria dos trabalhadores não-especializados foi dispensada, e o salário dos técnicos foi reduzido à metade.
Se de início os chefes agiram com notável rapidez, agora pagavam pela falta de planejamento. Essas fraquezas institucionais estão-se evidenciando mais nos negócios chineses por causa do ambiente de competição crescente. E a próxima etapa econômica desejada pela nação - produtos inovadores e a criação de marcas nacionais - exigirá mais criatividade e organização lógica.
Na Yashun, apenas o Chefe Gao cursara uma escola de comércio. O Mecânico Luo, o empregado mais importante, nem sequer concluíra o ensino elementar. Quando começara a trabalhar em período integral, aos 14 anos, era quase analfabeto, mas estudara à noite em Shenzhen. Cursos noturnos são comuns nas cidades chinesas de crescimento veloz, e Luo finalmente conseguiu seu diploma da escola secundária. Também adquiriu qualificações técnicas que lhe permitiram trabalhar com a Máquina, e ao longo dos anos fora aliciado três vezes por outras fábricas de argolas de sutiã. No processo, seu salário subira para 760 dólares mensais, remuneração alta na China. Como é comum na concorrência ruinosa da indústria chinesa, ele deixou cada um dos empregos sem aviso prévio. Simplesmente pediu alguns dias de férias, mudou o número do seu celular e nunca mais apareceu.
Quando a Yashun enfrentou dificuldades, os chefes reduziram à metade o salário do Mecânico Luo, e depois pararam de lhe pagar. Perversamente, isso refletia o valor desse empregado - ele era o único que entendia da Máquina. Durante crises, algumas fábricas chinesas pequenas param de pagar os salários, pois os empregados não partem enquanto lhes deverem dinheiro. A crise abateu-se em julho, quando a mulher do Mecânico Luo estava prestes a dar à luz. Ela morava na cidade natal de Luo, na província de Hubei, e ele me disse que seria seu segundo filho.
Os chefes não lhe deram licença para viajar. Em 27 de julho, o bebê nasceu de cesariana, e o Mecânico Luo declarou que precisava voltar de qualquer jeito para ajudar a esposa enquanto ela se recuperava da cirurgia. Finalmente concordaram, mas não quiseram pagar os salários atrasados. Naquela noite, quando levei Luo para comemorar com um jantar, as negociações ainda estavam em andamento. No final, os chefes pagaram-lhe um terço do que lhe deviam, e ele prometeu voltar em uma semana.
Depois, mãe e bebê viajaram 21 horas de ônibus até Lishui. Dividiam o quarto no alojamento da fábrica com o Mecânico Luo, que me apresentou o filho, todo orgulhoso. Perguntei como estava passando o irmão do bebê. Presumi que ele ficara no vilarejo com os avós. Mas vi consternação no rosto do homem e temi que algo terrível houvesse acontecido. "Este é nosso primeiro filho, na verdade", disse, baixando a voz. "Quando o Chefe Wang e o Chefe Gao me contrataram, falei que já tinha um filho para poder pedir salário maior. Para você, eu não queria mentir, mas eles estavam presentes quando conversamos."
Passados dois meses, a mulher levou o bebê de volta à sua província natal, Guizhou. Na estação do trem em Guiyang, duas mulheres aproximaram-se dela e ofereceram-lhe carona. Levaram-na até uma minivan, onde havia dois homens. Ao saírem da cidade, ela notou um cheiro forte de produto químico e sentiu-se desorientada. A próxima coisa de que se lembra é de ter sido roubada: 120 dólares em dinheiro, seu celular e seus brincos. Depois disso, o bebê ficou anormalmente sonolento, e a mãe telefonou em pânico para o Mecânico Luo. Ele dissera-lhe para dar banho na criança imediatamente. Felizmente, desde então, o bebê parece sadio. Ainda não completara 4 meses e já vivera numa fábrica, servira de peão em negociações salariais, fora drogado e assaltado. O Mecânico Luo dera-lhe o nome de Wen, "culto", pois sonhava ver o filho tornar-se um homem instruído.
Diferença de 3 dólares
A garota de 15 anos contratada pela fábrica abandonara os estudos depois da sétima série porque sua família precisava de dinheiro. Ninguém na fábrica parecia incomodar-se por ela ter usado o nome da irmã mais velha. Na China, onde a idade mínima legal para trabalhar é 16 anos, é comum trabalhadores registrarem-se com documento falso. A irmã acabou indo trabalhar lá também, assim como o pai. O sobrenome deles era Tao, e haviam migrado da província de Anhui. Em contraste com a maioria dos empregados, não moravam no alojamento, e sim num quarto alugado perto da fábrica. Nos meses de verão, a fábrica beirou a falência, os Tao raras vezes foram chamados para trabalhar. Mas por fim a corte feita pelo Chefe Wang aos clientes começou a compensar. Em agosto, a fábrica tinha cinco compradores constantes. Em setembro, 11 meses depois de a fábrica ter sido projetada, obteve seu primeiro lucro mensal. Em outubro, os negócios estavam de vento em popa, e os Tao trabalhavam longas horas diárias.
A irmã mais velha classificava argolas na linha de montagem da Máquina, e a de 15 anos, Yufeng, manejava os fios metálicos. Punha os fios curvos numa espiral que era mandada para um aquecedor industrial. Era trabalho pago por peça, e em um dia produtivo Yufeng podia acabar 30 mil fios, recebendo 7,50 dólares. Ela era rápida, confiável e segura de si. Enfrentava o Chefe Wang como ninguém. Uma noite, quando uma colega comemorou seu 16o aniversário, Yufeng usou a ocasião para forçar seu supervisor a beber. Ela ia tomando Sprite e incitando o homem a entornar cerveja Double Deer, aos gritos de: "Beba! Beba!" Pediu a mim e aos outros homens à mesa: "Brindem a ele! Quero que fique bêbado, assim não precisarei trabalhar duro amanhã!"
A exemplo da irmã, Yufeng entregava aos pais tudo o que ganhava. Seu sonho era um dia abrir uma fábrica de calçados. Disse-me que, se fosse bem-sucedida, construiria uma casa de três andares no vilarejo de seus avós. Quando lhe perguntei sobre os avós, ela ficou de olhos marejados. Não perguntei mais.
Em novembro, a Máquina estava produzindo 100 mil argolas por dia, e os chefes haviam instalado uma linha de montagem maior para os fios metálicos internos. Porém, como todos em Lishui, eles haviam apostado no crescimento rápido, e esperavam aumentar a força de trabalho para 60 empregados no fim do primeiro ano. Só tinham 20 por enquanto, e o prédio era três vezes maior que o necessário. "Ainda é muito cedo", Wang resmungou quando perguntei sobre o desenvolvimento de Lishui. "Toda a vez que precisamos de alguma peça ou de qualquer coisa para a Máquina, temos de ir até Wenzhou."
Naquele mês os chefes decidiram transferir a fábrica. Resolveram de supetão, sem consultar o Mecânico Luo ou qualquer outro. Gao encontrou dois prédios disponíveis nos pântanos ao norte de Wenzhou. Foram consultar o especialista em feng shui. Seu conselho foi inequívoco: 28 de novembro era também o oitavo dia do mês lunar, e não há nada melhor que dois números 8. A maioria dos empregados decidiu mudar junto com a fábrica. Mas para os Tao a situação se complicou. A mãe tinha uma pequena mercearia nas proximidades, e o filho mais novo cursava uma escola secundária local. Se o pai e as filhas mantivessem seus empregos, a família dividiria-se. Na fábrica, a decisão virou assunto de debates diários.- Você, a esta altura, já deveria ser independente - disse o Mecânico Luo a Yufeng durante um almoço.
- Você não tem conta em banco, tem?
- Não - respondeu ela.
- Ainda entrego todo o meu dinheiro aos meus pais. Eles precisam da minha ajuda.
- Ajudará mais se você for independente.
Depois caçoou dela, dizendo que saíra de casa com apenas 6 dólares no bolso quando garoto. Pelo modo como falava, parecia que Yufeng era apenas mais uma dessas meninas superprotegidas que trabalham 50 horas por semana numa linha de montagem. Mas o pai não quis deixar a decisão para as filhas. Fez pé firme e disse que partiriam juntos - mas só se o salário fosse negociado.
Na noite da véspera da mudança, os chefes finalmente ofereceram um aumento. O pai pediu mais; os chefes relutaram. Ninguém queria conversar face a face; por isso o Mecânico Luo levava as mensagens de um ao outro. Às 8 horas ele foi ao quarto de paredes de barro dos Tao. As moças saíram; os homens acenderam cigarros West Lake. O pai disse: "Não estou disposto a mudar se eles não fizerem valer a pena". "Eu sei", replicou o Mecânico Luo. "Eu também não estou com disposição para treinar novos empregados." A mãe opinou: "Talvez seja melhor mandá-las trabalhar numa fábrica de calçados."
Ele exigiu o mesmo salário para todos: 127 dólares garantidos por mês mais as horas extras e 6 dólares de ajuda de custo. O Mecânico Luo levou o recado aos chefes, que cortaram a ajuda de custo pela metade, uma diferença de 3 dólares. O pai não deu resposta, e a oferta continuava na mesa quando a noite terminou.
Um bom futuro à espera
Naquele outono, Lishuy solicitou o acréscimo de 35 quilômetros quadrados para a Zona de Desenvolvimento. O progresso era a nova realidade. A expansão demandaria um investimento de quase 900 milhões de dólares, a maior parte proveniente de empréstimos bancários. Planejavam dobrar a população da cidade até 2020. Para atender à crescente demanda por energia, estava sendo construída a represa de Tankeng, nas montanhas ao sul de Lishui. Por isso, 50 mil pessoas estavam sendo realocadas de dez cidades e 80 vilarejos. Assisti à evacuação final de Beishan, a maior cidade, em 25 de outubro de 2005 - data auspiciosa, segundo os especialistas em feng shui. Havia dias propícios para tudo, até para abandonar a cidade natal. As famílias abarrotaram caminhões basculantes com sua mobília e os descarregaram em oito novas comunidades ainda em construção. Em Youzhou, Chen Quiaomei contou-me que tivera dificuldade para encontrar seu apartamento, ainda sem janelas. "Parecem todos iguais!", reclamou ela.
Quando conversei com o diretor Wang sobre os planos de expandir a zona fabril de Lishui, ele admitiu que estava cada vez mais difícil obter aprovação para projetos assim. O governo central receava uma bolha no mercado imobiliário, mas ele, Wang, continuava confiante. "Estamos propondo uma área de desenvolvimento onde a terra não é boa para a agricultura", explicou.
Na parede de seu escritório havia um mapa da expansão proposta: futuras estradas, quarteirões industriais, rede de água. "Teremos de remover mais de 400 montanhas e montes", disse ele. Convidou-me a voltar em janeiro, quando seu filho estaria em casa, de férias. O filho daquele ex-condutor de tanque estava na Universidade de Auckland, estudando finanças internacionais.
Fantasmas da fábrica
Transferiram a fábrica de argolas de sutiã em um dia. Os chefes alugaram uma empilhadeira, quatro caminhões basculantes e sete homens. O Mecânico Luo desmontou a Máquina em três partes. As argolas de sutiã acabadas foram empacotadas em 94 caixas. Removeram tudo o que tinha algum valor, incluindo o carpete e as lâmpadas. Um ano antes, haviam encomendado portas de 10 dólares, e agora as tiravam dos gonzos.
Às 3 horas, as irmãs Tao chegaram de malas prontas. O pai tinha encontrado um emprego mais bem pago em uma fábrica próxima, que produzia couro sintético. Arranjara o trabalho dias antes, em segredo. Sua insistência em ficar com as filhas fora uma manobra da negociação. Não houve lágrimas no portão da fábrica. A última coisa que o pai disse foi: "Vocês precisam se agasalhar. Vai esfriar e, se não tiverem cuidado, vocês vão adoecer, terão de gastar dinheiro com remédios. Por isso, se agasalhem, ok? Adeus".
Dois dias depois, fui à Zona de Desenvolvimento, passando por fileiras de outdoors prontos: Amway, Estruturas de Aço Haishun, Ganchos de Aço Fengchang. A ex-fábrica Yashun estava destrancada. Lá dentro, argolas de sutiã juncavam o chão, entortadas, sujas, quebradas. Havia maços de cigarro amassados, rolos de fita adesiva usados. Um saco vazio de fraldas descartáveis. Um calendário de parede congelado em 22 de novembro. Um amuleto de boa sorte com o rosto de Mao Tsé-tung de um lado e um bodhisattva do outro. E em todo o alojamento, nas paredes brancas de gesso, as inscrições acumuladas por meses. Ao lado de sua cama, um operário listara números de combinações vencedoras de loteria. Outro escrevera: "Encontre o sucesso imediatamente". Outros grafitaram: "Reflita sobre o passado, leve em conta o futuro"; "Seja feliz a cada dia! Um novo dia começa a partir de agora!"; "Enfrente o futuro de peito aberto!"; "É possível ter sucesso em qualquer lugar. Juro que não voltarei para minha terra enquanto não for famoso".
Um vento frio batia nas janelas. Lá fora, era possível ouvir as fábricas vizinhas - o estrépito da produção de vidro, o estertor de moldes de plástico, o silvo pneumático da produção de aquecedores de água. Mas não havia nem um único som humano, apenas as vozes silenciosas nas paredes da fábrica abandonada.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
[d11] - Marcel Duchamp [paris-zurique-new york] + [1887-1968]
documentarista: janine
conceito: faça voce mesmo
texto: marcel duchamp, engenheiro do tempo perdido [cap05]
autor: pierre cabanne
Arte ou não-arte?A arte não é mais forma de decoração, mas um meio de contestação e diversão.Marcell Duchamp em um dos seus ataques de “destruição” à obra de arte eirresponsabilidade* lança na cena artística de New York a figura de RoseSélavy, uma “artista” dotada de uma profunda ironia (aspecto esse própriodele mesmo). Uma espécie de transfiguração artística de uma personalidadereal de Duchamp, uma tentativa de desvincular sua imagem à obra. Essa talirresponsabilidade está atribuída ao fato de que ao invés de assinar seupróprio nome em seus trabalhos, usou de pseudônimos para dar outro valor auma “obra de arte”. Valor esse que poder traduzido na idéia de desviar aatenção do observador para a obra e não para a assinatura. Se ele seconsiderava um não artista, porque então não se identificou em alguns dosseus trabalhos? Talvez por saber que seria um desses artistas? Ou por puradiversão? Através de um pensamento pessoal, não acho que essairresponsabilidade se restringe apenas numa assinatura, e sim, também, emseus atos de “destruição” à obra de arte de outros artistas.O artista se torna um personagem, sendo exposto como obra de arte.Para Duchamp a arte estava se tornando mais a forma de um signo, osentimento que se dirigiu durante toda sua vida. O que importa, na verdade,é a intenção do artista, a abstração e não mais o objeto em si.Duchamp, quando abandona a pintura, em 1915, assume uma atitude derompimento com o conceito de arte, considera que o gosto estético é fruto demero hábito e busca outros modos de expressão. Ele nega a própria noçãomoderna de obra de arte do séc.XVIII e séc.XIX, iniciando assim a construçãoda antiarte. O artista destrói a definição de mesma de maneiraesquizofrênica, se negando como artista, brincando com as coisas docotidiano de fazer arte, ou melhor, não-arte. A partir desse conceito de que o objeto produzido não interessa, mas sim opróprio artista enquanto obra de arte, Duchamp passa a definir uma visão provocativa da arte contemporânea.
“Picasso transformou tudo em arte, enquanto Duchamp, sem transformar nada,fez com que tudo pudesse ser arte”.
O fato de tudo poder ser arte, não implica em que qualquer coisa seja arte.Na verdade a “coisa” pouco importa. Arte é arte porque foi feito por umartista e está exposto num museu ou fotografado em uma revista. Até queponto podemos dizer que uma coisa é arte ou não-arte? Até que ponto pode-sedizer que um “artista” é um artista ou um Duchamp? O Duchamp era um artista?Na verdade, ela não está nos museus mas sim entranhada em nossa cultura ecomportamento, inspirando constantemente nossa imaginação.
“Ao invés de tentar se expor na vitrine esperando o olhar de alguém, por quenão vive e faz da sua vida uma obra de arte?”
Duchamp tentou buscar inspiração no clima artístico de Paris, onde fezexposições/mostras, fundando uma indústria cultural da arte. Baseando-se naidéia de que na Europa já existe um passado histórico, uma história da arte,de ruínas e construções (Paris – séc.XIX), um lugar menos agitado, “menossolto”. Onde que em New York, a primeira cicatriz de um passado recente foio acontecimento de 11 de setembro de 2001, lugar de maior agitação e liberdade artística.
Por New York, Duchamp circulava com suas maletas expondo seus trabalhos, como interesse de fazer a arte também circular.
Apesar de sua inteligência e sincera aversão à arte academizada e acomodada,a atitude antiarte e o exemplo que deu geraram, talvez por um mal-entendido,uma “arte” da facilidade e do improviso inconseqüente, da esquizofrenia e dodesrespeito, a que faltam exatamente exigência e rigor ético.
Contraditoriamente, a rebeldia de Duchamp tornar-se-ia arte oficial, aceitae financiada por fundações e museus, exposta em galerias. A própria obra deDuchamp terminou no Museu de Arte da Filadélfia. Ironia? Cultura, lixo ouarte? Duchamp x Arte.
Como exemplo de seguidores de Duchamp e da dissipação do seu trabalho tem-seBenjamin Vautier, que foi chamado até de Duchamp nº 2, com o conceito de quea obra de arte reside, acima de tudo, na intenção, procurando fazer de suavida uma obra artística. No lugar de se expor, ele se expõe.
A arte começa a se tornar história.Duchamp faz a distinção: O que é arte? O que é estética?
* Irresponsabilidade: s. f., qualidade do que é irresponsável.* Irresponsável: adj. 2 gén., não responsável;que não tem responsabilidade.* Responsável: adj. 2 gén.,que tem ou assumiu responsabilidade; que tem decumprir obrigações suas ou alheias; s. 2 gén., aquele que responde por.
Fluxus
Fluxus foi criado por George Maciunas, com intenção de ser o título de umarevista, que continha publicações de textos de artistas de vanguarda. Omovimento acontece nas décadas de 60 e 70 (EUA, Europa e Japão). O mesmocontestava o sistema de museu e galeria de arte através de performances,happenings e vídeo-arte. Tinha como objetivo transmitir para o cotidiano semter que ser exposto.
Os principais artistas são Jonhn Cage, com a peça 4’33’’. Nam June Paikapresentando instalações para exposições de vídeo-arte. Yoko Ono, mostrando instruções de obra arte.
Dentro de Fluxus existem as várias formas de manifestações artísticas: aarte conceitual, a performance, o happening. A arte conceitual foi ummovimento artístico moderno ou contemporâneo. Baseava-se no conceito paraobra antes dela ser produzida e tinha como preocupação a idéia e não oproduto final. A performance é um movimento mais elaborado que o happening,envolvendo a dança, o teatro, a música para uma platéia ou não platéia. Podeser uma ação mais aleatória, dependendo do acaso. Os happenings, paraDuchamp, é uma manifestação de aborrecimento, fazer algo para aborrecer aspessoas que estão ao redor servindo de espectadores. O verdadeiro happening não dura mais do que vinte minutos, pois normalmente acontecem em lugaresabertos, sem assentos.
Todas essas três manifestações estão vinculadas com a idéia de levar a artepara o meio urbano. Fluxus era uma manifestação artística sem regras esócios, como o Surrealismo. Cada um era Fluxus por si próprio. Qualquercoisa podia ser usada para arte, qualquer coisa pode ser arte e qualquerpessoa pode fazê-la.
O Fluxus, na verdade, tinha como conceito básico o “Faça Você Mesmo”, ondequalquer um pode ir para o meio urbano e apresentar uma manifestação ou uma“obra de arte” de uma forma mais teatral. Liberdade artística tão sustentadana idéia de Duchamp e Vautier.
Fluxus é uma arte não mais figurativa, nem abstrata, o que está em “jogo” é a vida das pessoas.
Biografia
Ben Vautier (1935)Nascido em Nápoles, o trabalho de Ben foi influenciado pela obra de MarcelDuchamp e Yves Klein de quem foi muito amigo. Associou-se ao grupo Fluxus em1962. Foi um dos pioneiros na criação e apresentação de happenings naEuropa. Ao longo dos anos 60 e 70, foi responsável por várias publicações. Participou de inúmeras mostras internacionais entre as quais a XVII Bienalde São Paulo com o Grupo Fluxus, apresentando o happening “Fluxus Concerto”(1983).
Questões
Fluxus não existe
Fluxus é manipulado pela CIA
Realidade é comer, dormir ...Não Fluxus.
Se na política tudo é mentira, porque não em Fluxus?
Se Fluxus fosse uma árvore onde estariam suas raízes?Cage? Duchamp? Zen? Malewitch?
Cultura é somente um meio de se lembrar quem somos nós
Cultura contém outro modo de contar para o outro: você não sou eu
Fluxus pode mudar isso.
Fluxus é uma piada, uma brincadeira.
Mas quando penso em arte e sua suposta importância eu não sinto vontade de brincar.
Bibliografia
*http://www.niteroiartes.com.br/cursos/la_e_ca/modulos2.html*http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=63
*http://bienalsaopaulo.globo.com/artes/artistas/artista_descritivo.asp?IDArtista=5875
*http://www.macvirtual.usp.br/mac/templates/exposicoes/exposicao_homenagem_pierre/exposicao_homenagem_restany.asp*http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=362
*www.mac.usp.br/.../arteconceitual/vautier.htm
*http://www.museofotografiacontemporanea.com/contemporanea/atelier/Atelier/vau001.htm
*http://www.sztaki.hu/providers/kirakat/projekt/gyujtes/ben1.html
*http://www.sztaki.hu/providers/kirakat/projekt/gyujtes/ben3.html
*http://www.ben-vautier.com/
*http://br.geocities.com/ideia_form/semana_22/duchamp.html*http://www.zmario.hpg.ig.com.br/textos.html*http://www.portalartes.com.br/portal/artigo_read.asp?id=612
Links de reportagens:
http://www.ambafrance.org.br/rj/francais/activite_culturelles4.htm
http://www.revista.art.br/site-numero-07/trabalhos/RESENHAS/RESENHA3.htm
http://ruibebiano.net/zonanon/artes/rr030105.htm
http://www.niteroiartes.com.br/cursos/la_e_ca/modulos2.html
http://www.eletronicbrasil.com.br/materiasarq.asp?Cod=8http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=63
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult2707u32.shtml (*adoreiesse!!!)
conceito: faça voce mesmo
texto: marcel duchamp, engenheiro do tempo perdido [cap05]
autor: pierre cabanne
Arte ou não-arte?A arte não é mais forma de decoração, mas um meio de contestação e diversão.Marcell Duchamp em um dos seus ataques de “destruição” à obra de arte eirresponsabilidade* lança na cena artística de New York a figura de RoseSélavy, uma “artista” dotada de uma profunda ironia (aspecto esse própriodele mesmo). Uma espécie de transfiguração artística de uma personalidadereal de Duchamp, uma tentativa de desvincular sua imagem à obra. Essa talirresponsabilidade está atribuída ao fato de que ao invés de assinar seupróprio nome em seus trabalhos, usou de pseudônimos para dar outro valor auma “obra de arte”. Valor esse que poder traduzido na idéia de desviar aatenção do observador para a obra e não para a assinatura. Se ele seconsiderava um não artista, porque então não se identificou em alguns dosseus trabalhos? Talvez por saber que seria um desses artistas? Ou por puradiversão? Através de um pensamento pessoal, não acho que essairresponsabilidade se restringe apenas numa assinatura, e sim, também, emseus atos de “destruição” à obra de arte de outros artistas.O artista se torna um personagem, sendo exposto como obra de arte.Para Duchamp a arte estava se tornando mais a forma de um signo, osentimento que se dirigiu durante toda sua vida. O que importa, na verdade,é a intenção do artista, a abstração e não mais o objeto em si.Duchamp, quando abandona a pintura, em 1915, assume uma atitude derompimento com o conceito de arte, considera que o gosto estético é fruto demero hábito e busca outros modos de expressão. Ele nega a própria noçãomoderna de obra de arte do séc.XVIII e séc.XIX, iniciando assim a construçãoda antiarte. O artista destrói a definição de mesma de maneiraesquizofrênica, se negando como artista, brincando com as coisas docotidiano de fazer arte, ou melhor, não-arte. A partir desse conceito de que o objeto produzido não interessa, mas sim opróprio artista enquanto obra de arte, Duchamp passa a definir uma visão provocativa da arte contemporânea.
“Picasso transformou tudo em arte, enquanto Duchamp, sem transformar nada,fez com que tudo pudesse ser arte”.
O fato de tudo poder ser arte, não implica em que qualquer coisa seja arte.Na verdade a “coisa” pouco importa. Arte é arte porque foi feito por umartista e está exposto num museu ou fotografado em uma revista. Até queponto podemos dizer que uma coisa é arte ou não-arte? Até que ponto pode-sedizer que um “artista” é um artista ou um Duchamp? O Duchamp era um artista?Na verdade, ela não está nos museus mas sim entranhada em nossa cultura ecomportamento, inspirando constantemente nossa imaginação.
“Ao invés de tentar se expor na vitrine esperando o olhar de alguém, por quenão vive e faz da sua vida uma obra de arte?”
Duchamp tentou buscar inspiração no clima artístico de Paris, onde fezexposições/mostras, fundando uma indústria cultural da arte. Baseando-se naidéia de que na Europa já existe um passado histórico, uma história da arte,de ruínas e construções (Paris – séc.XIX), um lugar menos agitado, “menossolto”. Onde que em New York, a primeira cicatriz de um passado recente foio acontecimento de 11 de setembro de 2001, lugar de maior agitação e liberdade artística.
Por New York, Duchamp circulava com suas maletas expondo seus trabalhos, como interesse de fazer a arte também circular.
Apesar de sua inteligência e sincera aversão à arte academizada e acomodada,a atitude antiarte e o exemplo que deu geraram, talvez por um mal-entendido,uma “arte” da facilidade e do improviso inconseqüente, da esquizofrenia e dodesrespeito, a que faltam exatamente exigência e rigor ético.
Contraditoriamente, a rebeldia de Duchamp tornar-se-ia arte oficial, aceitae financiada por fundações e museus, exposta em galerias. A própria obra deDuchamp terminou no Museu de Arte da Filadélfia. Ironia? Cultura, lixo ouarte? Duchamp x Arte.
Como exemplo de seguidores de Duchamp e da dissipação do seu trabalho tem-seBenjamin Vautier, que foi chamado até de Duchamp nº 2, com o conceito de quea obra de arte reside, acima de tudo, na intenção, procurando fazer de suavida uma obra artística. No lugar de se expor, ele se expõe.
A arte começa a se tornar história.Duchamp faz a distinção: O que é arte? O que é estética?
* Irresponsabilidade: s. f., qualidade do que é irresponsável.* Irresponsável: adj. 2 gén., não responsável;que não tem responsabilidade.* Responsável: adj. 2 gén.,que tem ou assumiu responsabilidade; que tem decumprir obrigações suas ou alheias; s. 2 gén., aquele que responde por.
Fluxus
Fluxus foi criado por George Maciunas, com intenção de ser o título de umarevista, que continha publicações de textos de artistas de vanguarda. Omovimento acontece nas décadas de 60 e 70 (EUA, Europa e Japão). O mesmocontestava o sistema de museu e galeria de arte através de performances,happenings e vídeo-arte. Tinha como objetivo transmitir para o cotidiano semter que ser exposto.
Os principais artistas são Jonhn Cage, com a peça 4’33’’. Nam June Paikapresentando instalações para exposições de vídeo-arte. Yoko Ono, mostrando instruções de obra arte.
Dentro de Fluxus existem as várias formas de manifestações artísticas: aarte conceitual, a performance, o happening. A arte conceitual foi ummovimento artístico moderno ou contemporâneo. Baseava-se no conceito paraobra antes dela ser produzida e tinha como preocupação a idéia e não oproduto final. A performance é um movimento mais elaborado que o happening,envolvendo a dança, o teatro, a música para uma platéia ou não platéia. Podeser uma ação mais aleatória, dependendo do acaso. Os happenings, paraDuchamp, é uma manifestação de aborrecimento, fazer algo para aborrecer aspessoas que estão ao redor servindo de espectadores. O verdadeiro happening não dura mais do que vinte minutos, pois normalmente acontecem em lugaresabertos, sem assentos.
Todas essas três manifestações estão vinculadas com a idéia de levar a artepara o meio urbano. Fluxus era uma manifestação artística sem regras esócios, como o Surrealismo. Cada um era Fluxus por si próprio. Qualquercoisa podia ser usada para arte, qualquer coisa pode ser arte e qualquerpessoa pode fazê-la.
O Fluxus, na verdade, tinha como conceito básico o “Faça Você Mesmo”, ondequalquer um pode ir para o meio urbano e apresentar uma manifestação ou uma“obra de arte” de uma forma mais teatral. Liberdade artística tão sustentadana idéia de Duchamp e Vautier.
Fluxus é uma arte não mais figurativa, nem abstrata, o que está em “jogo” é a vida das pessoas.
Biografia
Ben Vautier (1935)Nascido em Nápoles, o trabalho de Ben foi influenciado pela obra de MarcelDuchamp e Yves Klein de quem foi muito amigo. Associou-se ao grupo Fluxus em1962. Foi um dos pioneiros na criação e apresentação de happenings naEuropa. Ao longo dos anos 60 e 70, foi responsável por várias publicações. Participou de inúmeras mostras internacionais entre as quais a XVII Bienalde São Paulo com o Grupo Fluxus, apresentando o happening “Fluxus Concerto”(1983).
Questões
Fluxus não existe
Fluxus é manipulado pela CIA
Realidade é comer, dormir ...Não Fluxus.
Se na política tudo é mentira, porque não em Fluxus?
Se Fluxus fosse uma árvore onde estariam suas raízes?Cage? Duchamp? Zen? Malewitch?
Cultura é somente um meio de se lembrar quem somos nós
Cultura contém outro modo de contar para o outro: você não sou eu
Fluxus pode mudar isso.
Fluxus é uma piada, uma brincadeira.
Mas quando penso em arte e sua suposta importância eu não sinto vontade de brincar.
Bibliografia
*http://www.niteroiartes.com.br/cursos/la_e_ca/modulos2.html*http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=63
*http://bienalsaopaulo.globo.com/artes/artistas/artista_descritivo.asp?IDArtista=5875
*http://www.macvirtual.usp.br/mac/templates/exposicoes/exposicao_homenagem_pierre/exposicao_homenagem_restany.asp*http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=362
*www.mac.usp.br/.../arteconceitual/vautier.htm
*http://www.museofotografiacontemporanea.com/contemporanea/atelier/Atelier/vau001.htm
*http://www.sztaki.hu/providers/kirakat/projekt/gyujtes/ben1.html
*http://www.sztaki.hu/providers/kirakat/projekt/gyujtes/ben3.html
*http://www.ben-vautier.com/
*http://br.geocities.com/ideia_form/semana_22/duchamp.html*http://www.zmario.hpg.ig.com.br/textos.html*http://www.portalartes.com.br/portal/artigo_read.asp?id=612
Links de reportagens:
http://www.ambafrance.org.br/rj/francais/activite_culturelles4.htm
http://www.revista.art.br/site-numero-07/trabalhos/RESENHAS/RESENHA3.htm
http://ruibebiano.net/zonanon/artes/rr030105.htm
http://www.niteroiartes.com.br/cursos/la_e_ca/modulos2.html
http://www.eletronicbrasil.com.br/materiasarq.asp?Cod=8http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=63
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult2707u32.shtml (*adoreiesse!!!)
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notas sobre a produção de teorias urbanas quaisquer
sobre fazer teoria
.Como se conhece
.O que é especular ou hipóteses
.Como racionalizar
.Sobre teoria e prática ou a importância da consideração do fenômeno teórico como histórico presentificável
.Quem formula uma teoria
sobre o Urbano
.Potências [in]disciplinares
.Virtualidade e Transdução
.Dialética e Gradações: necessidades da realidade
.vida cotidiana
.Urbanismo
.Sobre valores
.Festa
.[bio]Potência
[...]quaisquer?
sobre [panf]letagens [2sem2009]
usar a palavra-chave dada a partir dos seguintes textos como ponto de partida para produção de um construto
01. Kitchen Stories [direção: Bent Hammer] + ABALOS, I. O que é Paisagem = paisagens íntimas
02. KOOLHAAS, R. Cidade Genérica + KOOLHAAS, Rem. Vida na Metrópole ou a Cultura da Congestão = fantasias genéricas / congestão genérica
03. TSCHUMI, B. O Prazer da Arquitetura IN: NESBIT, K. Uma Nova Agenda para a Arquitetura = funcional / inutilidade
04. VIDLER, A. Teoria do Estranhamento Familiar IN: NESBIT, K. Uma Nova Agenda para a Arquitetura = roberto / dessimbolização
05. MAAS, W. FARMAX = leveza
06. NEGRI, A, HARDT, M. Multidão = maria de fátima
07. FLUSSER, V. Design: Obstáculo para a remoção de Obstáculos IN: _______. O Mundo Codificado = reciclagem / sofá
08. GANZ, Louise. Lotes Vagos na Cidade: Proposições para Uso Livre IN: ____ SILVA, B. Lotes Vagos = beleza
09. CRIMP, Douglas. Isto não é um Museu IN: _________. Sobre as Ruínas do Museu = coleção de museu / admiração imparcial
10. WEIZMAN, Eyal. Desruição Inteligente IN: v.v.a.a. 27a Bienal de Arte de São Paulo. Como Viver Junto = infestação / desparedamento
11. Koolhaas Houselife = funcionalidade
12. CORTEZAO, Simone. Paisagens Engarrafadas = paisagismo marcado
13. BRANDAO, Luis Alberto. Mapa Volátil. Imaginário Espacial: Paul Auster IN: _______. Grafias de Identidade. Literatura Contemporânea e Imaginário Nacional = andarilho
14. CANUTO, Frederico. Notas Sobre Ecologias Espaciais = ecossistemas
15. SANTANA, P. A Mercadoria Verde: A natureza = fotografias verdes
16. Central da Periferia = calypso amazônico / brega
17. BECKER, B. Amazônia: mudanças Estruturais e Urbanização IN: GONCALVES, M.F. et al. Regiões e Cidades. Cidades nas Regiões = fotografias verdes
19. Edifício Master. Direção: Eduardo Coutinho + CANUTO, Frederico. Apto[s], 01qrt, 1sl, 1coz, s/vg. =
20. WISNIK, Guilherme. Estado Crítico =
[d] - 1sem2009 = [doc]01 - 1osem2007 = [doc]
Documentário: Documentar os conteúdos ministrados durante a aula do dia, sendo obrigatório entregar no dia posterior, um arquivo digital contendo:
-fotografias/imagens do que foi escrito nas carteiras ou no quadro negro, bem como as discussões em sala de aula;
-outras imagens podem ser colocadas, porém devem ser relacionadas ao conteúdo da aula;
-um texto como o resumo da aula, podendo ou não conter colocações do aluno-autor;
-biografia dos autores citados em sala de aula [pesquisar no curriculo lattes, wikipedia e outros sites]. Na biografia dos autores citados deve, necessariamente, conter os trabalhos mais relevantes, bem como vínculo a escolas de pensamento;
-indicações de sites relacionados aos assuntos trabalhados em sala [mínimo de 05 links];
-notícias relacionadas ao assunto discutido em sala [mínimo de 05 notícias];
-fotografias/imagens do que foi escrito nas carteiras ou no quadro negro, bem como as discussões em sala de aula;
-outras imagens podem ser colocadas, porém devem ser relacionadas ao conteúdo da aula;
-um texto como o resumo da aula, podendo ou não conter colocações do aluno-autor;
-biografia dos autores citados em sala de aula [pesquisar no curriculo lattes, wikipedia e outros sites]. Na biografia dos autores citados deve, necessariamente, conter os trabalhos mais relevantes, bem como vínculo a escolas de pensamento;
-indicações de sites relacionados aos assuntos trabalhados em sala [mínimo de 05 links];
-notícias relacionadas ao assunto discutido em sala [mínimo de 05 notícias];
[a]02 - 1osem2007
Apresentações
Grupo A: Apresentação para a sala de aula dos seguintes temas:[SURREALISMO]+[DADAISMO]+[FLUXUS], segundo os seguintes critérios mínimos:
-exposição do pensamento do grupo e diversas correntes internas, através de seus conceitos;
-exposição das diversas modalidades: pintura, escultura, arquitetura...;
-período e países onde atou;
-principais nomes e respectivos trabalhos;
-articulação obra-conceitos-ambiente urbano.
Grupo B: Apresentação para a sala dos seguintes temas: [KOOLHAAS01 – Delirous New York+SMLXL]+
[KOOLHAAS02 – Mutations+Project on the City 01+02]+
[KOOLHAAS03 – Content +Reconsidering OMA], segundo os seguintes critérios mínimos:
-conceitos;
-eviolução de pensamento;
-textos e questões trabalhadas;
-cronologia dos trabalhos;
-articulação obra-conceitos-ambiente urbano.
[ps]03 - 1osem2007 = [ps]
Paisagens Superabundantes: Texto a ser entregue contendo imagens e textos, a partir dos conceitos operativos definidos diariamente na disciplina Teoria Urbana.