[National Geographic. junho/2007. Disponível em http://nationalgeographic.abril.uol.com.br/ng/edicoes/87/reportagens/mt_234786.shtml]
A China, em disparada, não quer saber de limites de velocidade. Cidades multiplicam-se pelo mapa do país, numa febre cartográfica contagiante. Um repórter e um fotógrafo registram meses desse frenesi empreendedor.
Às 14h30, os chefes começaram a projetar a fábrica. O prédio de três andares alugado estava perfeitamente vazio: paredes brancas, piso livre, porta da frente sem tranca. Entrada e saída à vontade. A mesma liberdade vista em todo o resto da Zona de Desenvolvimento Econômico de Lishui. Os prédios vizinhos também eram cascas vazias, e ladeavam uma rua de terra que apontava para uma rodovia inacabada. Painéis prateados para outdoors refletiam o céu, vazios, anunciando apenas a luz do Sol de fim de outubro.Wang Aiguo e Gao Xiaomeng tinham viajado 128 quilômetros desde Wenzhou, cidade na costa sudeste da China. Eram parentes, tio e sobrinho, e chegaram a Lishui para montar novo negócio. "Toda esta área acaba de ser aberta", explicou Gao quando o encontrei no portão da fábrica. "Wenzhou já foi assim, mas agora ali está muito caro, ainda mais para uma firma pequena. Um lugar como este hoje é melhor."No primeiro andar juntaram-se a nós um empreiteiro e seu ajudante. Não havia arquiteto nem desenhista, e ninguém trouxera régua ou fio de prumo. O Chefe Gao começou distribuindo cigarros da marca 555. Tinha 33 anos, cabelo à escovinha e um jeito nervoso que piorava quando seu tio estava por perto. Depois de todos acenderem seus cigarros, o moço pegou caneta e um pedaço de papel em sua bolsa a tiracolo.
Primeiro, desenhou as paredes exteriores da sala. Depois, começou a projetar; cada traço representava uma parede a ser instalada, e a fábrica começou a tomar forma diante dos nossos olhos. Desenhou duas linhas no canto sudoeste: a futura sala das máquinas. Contíguo a ela, um laboratório de química, seguido de um depósito e uma sala das máquinas secundária. O Chefe Wang, o tio, examinou a página e calmamente decretou: "Não precisamos dessa sala".Conferenciaram e resolveram riscar a sala. Em 27 minutos haviam concluído o projeto do térreo. Passamos ao andar de cima. Mais cigarros. O Chefe Gao virou o papel. Em mais 23 minutos, projetaram um escritório, um corredor e três salas de visita para os gerentes da fábrica. No andar de cima, os dormitórios dos trabalhadores tomaram-lhes mais 14 minutos. Ao todo, mapearam uma fábrica de 2 mil metros quadrados, de ponta a ponta, em uma hora e quatro minutos. Gao entregou o pedaço de papel ao empreiteiro. O homem perguntou para quando queriam o orçamento."Que tal hoje à tarde?" O empreiteiro olhou o relógio. Eram 15h48. "Não dá para fazer tão rápido", rebateu. "Tudo bem; então amanhã de manhã", conformou-se o Chefe Gao.Discutiram sobre o material: tinta, cimento, areia, blocos de concreto de cinza. "Queremos as portas de 10 dólares", o Chefe Wang avisou o empreiteiro, que era natural de Lishui. "E não tente levar vantagem usando material mais barato. Faça um bom trabalho agora, e nós contrataremos você de novo. É assim que se ganha dinheiro em Wenzhou. Entendeu?"
Um mar de comodidades
A livraria do aeroporto de Wenzhou tem no estoque um livro intitulado Você Não Entende Realmente o Povo de Wenzhou. Na mesma prateleira encontramos: O Temido Povo de Wenzhou; Coletânea dos Segredos do Povo de Wenzhou para Ganhar Dinheiro; e As Jóias do Oriente: as Histórias Comerciais de 50 Empresários de Wenzhou. Os chineses andam fascinados por essa parte da província de Zhejiang, e a imprensa local contribui para a lenda. A revista Fortune Weekly de Wenzhou publicou um perfil dos milionários locais. Uma das perguntas era: se você fosse forçado a escolher entre seu negócio e sua família, com qual ficaria? Quase 60% escolheram o negócio e 20% a família. O restante permaneceu indeciso.Desde o princípio, certo desespero impulsionou a tradição empresarial de Wenzhou. A região tinha pouco solo cultivável, e seu terreno montanhoso era obstáculo a boas estradas para o interior. Com poucas opções, os habitantes recorreram ao mar, e, no século 17, período final da dinastia Ming, já tinham desenvolvido sólida cultura comercial. Mas perderam o elã após 1949, quando os comunistas tomaram o poder, cortaram as ligações marítimas com o exterior e extinguiram a iniciativa privada. Mesmo no começo da década de 1980, quando as reformas de livre mercado de Deng Xiaoping começaram a vingar, Wenzhou saiu em desvantagem. Seus habitantes não eram instruídos como os de Pequim, e não atraíram o investimento estrangeiro de Xangai. Quando o governo criou a primeira Zona Econômica Especial, com comércio e incentivos fiscais destinados a fomentar o crescimento, escolheu Shenzhen, próximo a Hong Kong.Mas Wenzhou possuía um inestimável capital: o instinto comercial nativo. Famílias abriram minúsculas oficinas, muitas com menos de 12 trabalhadores, para produzir mercadorias simples. Com o tempo, as oficinas prosperaram e transformaram-se em fábricas, e Wenzhou passou a dominar certos ramos de baixa tecnologia. Hoje, um quarto dos calçados comprados na China provém de Wenzhou. A cidade fabrica 70% dos isqueiros usados no mundo. Mais de 90% da economia de Wenzhou é privada.
O Modelo Wenzhou, como se tornou conhecido, difundiu-se por toda a província meridional de Zhejiang. Embora quase 80% de todos os empresários de Zhejiang tenham apenas oito anos ou menos de educação formal, a província tornou-se a mais rica da China pela maioria dos indicadores econômicos. A renda per capita tanto na zona rural como na urbana é maior que a das demais províncias chinesas (excluindo as cidades com administração especial, como Xangai e Pequim). Zhejiang reflete o milagre econômico chinês: uma nação pobre e predominantemente rural que deu um jeito de tornar-se o mais dinâmico centro fabril do mundo.Ao longo de um ano, estive várias vezes em Zhejiang, viajando pela província num carro alugado em Wenzhou. Assim como um peregrino faz sua jornada pela Espanha, parando em santuários de santos sem renome, passei pela terra natal de produtos tão corriqueiros que nunca indagamos de onde vieram. Do aeroporto, seguindo para o sul pelo litoral, comecei pelas dobradiças. Naquele trecho de estrada, a maioria dos outdoors anunciava as mais variadas versões da peça. Um quilômetro e meio depois, os anúncios eram sobre plugues e adaptadores elétricos. Cheguei então a uma área de interruptores, seguida por uma de lâmpadas fluorescentes e por fim uma de torneiras.Mais para o interior da província, os santuários tornavam-se mais elaborados. Em Qiaotou, parei para admirar uma estátua prateada de 6 metros de altura erigida pelos anciões da cidade: um botão alado. A população de Qiaotou não passa de 64 mil, mas 380 fábricas produzem ali mais de 70% dos botões de roupa fabricados na China. Em Wuyi, perguntei a alguns circunstantes qual era o produto local. Um homem enfiou a mão no bolso e tirou três cartas de baralho: damas, todas elas. A cidade fabrica mais de 1 bilhão de baralhos por ano. O município de Datang produz um terço das meias do mundo. Songxia fabrica 350 milhões de guarda-chuvas por ano. Raquetes de tênis de mesa vêm de Shangguan; Fenshui produz canetas; Xiaxie faz brinquedos de playground. E 40% das gravatas do mundo saem de Shengzhou.
Tudo é vendido em uma cidade chamada Yiwu. Para o peregrino de Zhejiang, essa é a terra prometida. O slogan de Yiwu é: "Um mar de comodidades, o paraíso das compras". Yiwu é um lugar ermo a 161 quilômetros da costa, mas recebe comerciantes do mundo todo que ali vão comprar no atacado. Há o distrito dos lenços, um mercado de sacolas plásticas, uma avenida onde todas as lojas vendem elásticos. Quando você não agüentar mais ver botões, pode dar uma volta pela rua do Zíper Profissional Binwang. A International Trade City, em Yiwu, uma galeria comercial, tem mais de 30 mil quiosques - se você passar um minuto em cada um, oito horas por dia, irá embora dois meses depois. Yiwu atrai tantos negociantes do Oriente Médio que um bairro abriga 23 grandes restaurantes árabes e uma padaria libanesa. Jantei no Arbeer, restaurante curdo, com um negociante do norte do Iraque. Ele estava comprando jeans e lâmpadas elétricas.No passado, Lishui era a única dentre as principais cidades de Zhejiang fora da rota dos peregrinos. Ela fica no alto das montanhas, onde o rio Ou é raso demais para o tráfego de embarcações grandes. Um morador chamou-a de o "Tibet de Zhejiang". Entendi sua mensagem: naquela paisagem industrial, Lishui era a última fronteira. Era a cidade mais pobre da rica província chinesa, mas a nova rodovia estava quase concluída, e os investidores estavam chegando rápido.
A memória de liu hongwei
Três meses depois de projetarem a fábrica, o Chefe Gao e o Chefe Wang testaram o equipamento. Desde minha primeira visita, haviam aliciado meia dúzia de operários especializados de outra fábrica do sul da China e instalado uma linha de montagem. Uma máquina de 15 metros de comprimento espreitava carrancuda na sala do canto: 5 443 quilos de aço pintado de verde-mar.
O troço rugiu quando o técnico encarregado acionou o interruptor. Bicos de gás zumbiram sob belas chamas azuladas. Uma esteira de aço inoxidável deu um arranco e avançou. O painel digital acompanhava a temperatura que subia: 200 graus Celsius, 300 graus, 400. Chegou a 474, depois caiu. Precisava chegar a 500 para a produção começar. Mas não avançava."Talvez seja porque aqui é mais frio que em Guangdong", disse o técnico. Seu nome era Luo Shouyun, mas todos o chamavam de Mecânico Luo. Ele calçou luvas à prova de fogo e tentou abrir a porta de um dos fornos da máquina. Mas a maçaneta derreteu em sua mão. Ele a soltou, xingando, e a peça de metal incandescente ficou no chão, sibilando como uma cobra zangada. "Mei shir", disse o Chefe Wang. "Tudo bem."O Mecânico Luo remexeu na caixa de controle. Especulou que os botijões de gás natural talvez estivessem frios demais. Os homens ajustaram as válvulas e começaram a balançar os volumosos tubos metálicos. A temperatura não subiu. Sacudiram mais forte os tubos, e nada. Alguém foi buscar uma escada e água fervendo.
O Chefe Gao parecia mais alvoroçado que o habitual. Nunca havia instalado uma linha de montagem tão grande. Mais de uma década antes, começara sua primeira oficina na periferia de Wenzhou. Com seus pais e duas irmãs, produzia tecido para forro de cós de calças baratas. Inicialmente os lucros foram de 50%, e a oficina cresceu sem parar até brotarem no bairro mais de 20 outras firmas produtoras de forro de calça. As margens de lucro foram caindo, e o Chefe Gao desistiu. "Antigamente cada um tentava descobrir um produto que mais ninguém fabricava", explicou ele. "Mas agora tudo já está sendo produzido por alguém na China."Esse é um ponto fraco do Modelo de Wenzhou. Os empreendedores produzem mercadorias que requerem pouco capital e baixa tecnologia, e isso facilita aos vizinhos entrar no ramo. O Chefe Wang, o tio, começara assim. Antes fabricava fio de aço para armações de sutiãs, e seus lucros foram caindo. Quando os dois homens juntaram as forças, decidiram continuar a fabricar os fios metálicos, mas também descobrir um produto principal mais lucrativo.
Por sorte, o sutiã médio possui 12 componentes distintos. Cogitaram na linha, depois na renda, depois nos fechos. Avaliaram. Mas apenas quando chegaram em cima, nas minúsculas argolas em forma de 0 e 8 que ajustam as alças do sutiã, acharam o que procuravam.
Uma argola de sutiã é feita de aço revestido com náilon acetinado, e sua produção é um processo especializado. O principal equipamento é uma linha de montagem regulada por computador. Ela se divide em três estágios, e em cada um o objeto é aquecido a mais de 500 graus Celsius. Tais argolas eram produzidas na Europa, mas, no começo dos anos 1990, Taiwan dominou o mercado. Em meados daquela década, uma empresa da China continental chamada Daming importou uma dessas linhas de montagem.
Na época em que chegou ao continente, onde os custos de produção são muito menores, "a Máquina" praticamente fabricava dinheiro. O Chefe enriqueceu, e então um operário chamado Liu Hongwey teve uma idéia. Apesar de sua pouca instrução, Liu era um mecânico especializado e tinha intimidade com a Máquina. Ele memorizou a linha de montagem, peça por peça, e em segredo desenhou esquemas de todo o equipamento. Quando o desenho ficou pronto, ele entrou em contato com um segundo Chefe em uma empresa chamada Shangang Keji, na cidade de Shantou.
Em 1998, o Chefe Número 2 contratou Liu e levou seu desenho à Fábrica de Equipamentos Qingsui, em Guangzhou, que produziu a linha de montagem segundo as especificações. De início, a nova Máquina não funcionou - afinal de contas, ninguém tem memória perfeita. Mas dois meses de ajustes resolveram os problemas. A Shangang Keji começou a produzir argolas de sutiã, mas então Liu encontrou o Chefe Número 3 em uma empresa chamada Jinde. Cada vez que Liu trocava de patrão, pedia dinheiro por seus desenhos e por seu conhecimento. Acredita-se que ele possa ter faturado até 20 000 dólares.
Quase dois séculos depois, a sorte de Liu Hongwei acabou quando ele tentou oferecer seu know-how para o Chefe Número 4. Segundo um ex-colega, o Número 3 ofereceu um prêmio de 12 000 dólares para quem encontrasse Liu, e ele fugiu. "Sei que a Jinde estava procurando por ele, e que estavam bravos", disse Gu Hong, administrador de empresa de Qingsui que ajudara a construir a Máquina. "Mas ele sumiu."
A indústria também já tinha mudado. Nos cinco anos seguintes à reinvenção de Liu, o preço das argolas de sutiã caiu 60%. Hoje mais de 20 fábricas chinesas produzem esse artigo, e a Máquina está ao alcance de quem tiver 65 000 dólares. Antes, todos os principais fabricantes se concentravam no sul, mas agora o Chefe Gao e o Chefe Wang tinham planos de ser os primeiros fabricantes de argola em Zhejiang.
No dia em que testaram a Máquina, a temperatura recusou-se a subir mais, e os homens tiveram de revezar-se na escada, jogando sem parar baldes de água fervendo nos botijões de gás. Depois de quatro horas de testes, desistiram. No fim, o Mecânico Luo desmontou a Máquina, substituiu uma peça importante e aproximou mais os bicos de gás da linha de montagem. Isso levou quase duas semanas. Algumas partes da Máquina receberam ajustes improvisados com madeira compensada e arame. A maçaneta que derreteu não tornou a ser afixada.
"Os esquemas ainda não são muito bons", o Mecânico Luo explicou. Anos atrás, ele trabalhara com Liu Hongwei, e disse as mesmas coisas que ouvi de outros sobre o famoso larápio de tecnologia. Liu era alto, trapaceiro e da província de Sichuan. Achavam que talvez Liu não fosse seu nome verdadeiro, e nunca nenhuma pessoa tinha conhecido sua esposa ou filho. E, agora, ninguém tinha a mínima idéia de seu paradeiro.
Remover montanhas
O lema do governo para a Zona de Desenvolvimento Econômico de Lishui é: "Cada pessoa faz o trabalho de duas; o trabalho de dois dias é feito em um". Talvez seja um ideal muito modesto. De 2000 a 2005, a população da cidade passou de 160 mil para 250 mil habitantes, e o governo local investiu 8,8 bilhões de dólares em infra-estrutura na região sob seus cuidados - cinco vezes mais que a quantia gasta no meio século anterior. Em termos monetários, o que antes eram 50 dias de trabalho agora se fazia em um.
Nas três últimas décadas, a economia chinesa cresceu em média 10% ao ano. É impelida pela maior migração que o mundo já viu: estima-se que 140 milhões de chineses já tenham deixado a zona rural, e há previsão de que outros 45 milhões se juntem à força de trabalho urbana nos próximos cinco anos. A maioria foi para cidades industriais ao longo da costa, mas em anos recentes os migrantes têm sido crescentemente atraídos para cidades interioranas, onde ainda é menor a competição por emprego.
Essas cidades precisam crescer e atrair indústrias por conta própria, pois o governo central já não custeia nem orienta, como na antiga economia planejada. Uma estratégia comum é criar uma zona fabril: limpar uma área, vender terrenos a preços baixos e conceder incentivos fiscais aos investidores interessados. Em 2002 Lishui começou a construção de uma zona fabril, um lote de 14,5 quilômetros quadrados contíguo à orla sul da cidade. Em 2006, quase 200 fábricas atraíam 30 mil trabalhadores migrantes.
Esse crescimento inicial foi regido por Wang Lijiong, 48 anos, diretor da Zona de Desenvolvimento. Na juventude, o primeiro emprego de Wang fora numa fábrica de dinamite, antes de passar cinco anos dirigindo um tanque para o Exército de Libertação do Povo. Ao sair do Exército, ele foi trabalhar em um banco estatal e começou a ascender na burocracia do governo. Wang é cordial e franco, qualidades raras em autoridades chinesas. Disse-me que ainda se inspira em sua experiência militar. "Num tanque, vamos direto ao alvo", comparou ele. "Precisamos do espírito de persistência."
A zona de Lishui ocupa um terreno acidentado antes usado para cultivo. O Diretor Wang disse-me que aproximadamente mil camponeses haviam sido realocados, além de exatamente 108 montanhas e montes. "Rebaixamos os lugares altos e elevamos os baixos", explicou com simplicidade. Em uma de minhas viagens anteriores a Lishui eu vira uma elevação ser rebaixada. Havia 30 caminhões basculantes e 11 escavadeiras; os operários tinham acabado de rechear a colina com 8 981 quilos de dinamite. Aquele local viria a abrigar meia dúzia de indústrias químicas.
Um operário reparou em mim e aproximou-se. Trazia em cada mão uma sacola de compras barata, cheia de explosivos. Pôs as sacolas no chão com naturalidade e pediu: "O senhor levaria meu irmão mais novo para Nova York?"
Depois de uma década vivendo como estrangeiro na China, eu já estava acostumado a mudanças bruscas de assunto numa conversa, mas aquela abordagem me deixou mudo. Além disso, eu não conseguia tirar os olhos daquelas sacolas. O homem sorriu e disse: "Estou brincando. Mas ele quer mesmo ir para os Estados Unidos".
Ele apresentou-me a Mu Shiyou, o encarregado da detonação. Mu e eu andamos até a base do monte condenado, onde um emaranhado de fios ligava-se à dinamite empilhada. Ele emendou os fios formando uma única linha e a desenrolou enquanto nos afastávamos. A área fora evacuada. O silêncio era tanto que eu podia ouvir os pássaros acima de nós.
A caixa do detonador tinha dois comutadores rotulados: "Carrega" e "Explode". Ficamos atrás das rodas de lagarta de um trator estacionado. Um comando crepitou no walkie-talkie de Mu: "Carregar!" Ele acionou o comutador e sugeriu-me: "Vá até ali para ver melhor!" Contagem regressiva, outro comando, e ele acionou o segundo comutador. Tudo muito simples. Por um breve instante, antes de se ouvir qualquer som, uma teia de eletricidade bruxuleou por toda a encosta, como relâmpagos ao atingir a terra.
Vestir a camisa da empresa
Em 6 de fevereiro, meio mês depois de testar a Máquina, o Chefe Wang inaugurou oficialmente a fábrica queimando duas caixas de fogos de artifício. Pelo calendário lunar, era o oitavo dia do ano novo, e um especialista em feng shui aconselhara os proprietários a aproveitar o oito, número de sorte na China.
Como a maioria dos empresários de Wenzhou, o Chefe Wang era muito supersticioso. Falava com voz aguda, gaguejando um pouco e pestanejando rapidamente. Tinha 40 anos. No passado, sempre fabricara partes específicas de objetos: peças de encanamento, de campainha de bicicleta, de sutiãs. Hoje ele percebe que deveria ter entrado para o ramo dos calçados quando moço. "Eu me arrependo um pouco", contou ele, pois vários de seus amigos da juventude ficaram milionários fabricando calçados. Até na nova zona fabril de Lishui, onde quase tudo ainda estava em construção, a galinha do vizinho já era mais gorda. O vizinho do Chefe Wang era a Geley Materiais Elétricos e Cia., cujo dono começara como humilde fabricante de botões em Qiatou antes de mudar para coisas maiores e melhores. Hoje a Geley emprega centenas de operários, e a nova fábrica produz tomadas elétricas de plástico que custam 3 dólares cada uma.
O Chefe Wang e o Chefe Gao deram à sua empresa o nome inglês de Lishui Yashun Underdress Fittings Industry Co., Ltd. (Yashun Indústria de Peças para Lingerie de Lishui e Cia. Ltda.). Criar a marca foi instantâneo: por menos de 800 dólares, um designer de Wenzhou fez o logotipo, os mostruários, o website e os cartões de visita. Tudo em rosa-choque. O site e os mostruários continham fotos de voluptuosas ocidentais de sutiã. Os cartões de visita traziam um logotipo.
O que será que esse desenho representa, pensei comigo. Um pássaro voando? Um coração? Ou serão dois? "Não sei o que significa", adiantou-se o Chefe Wang. "Não importa, contanto que seja bonito. O designer provavelmente se inspirou em outra empresa."Três dias depois de queimar os fogos, o Chefe Wang afixou no portão da fábrica um cartaz manuscrito anunciando vagas.1. Idade: 18 a 35, ensino médio2. Boa saúde, boa qualidade3. Atento à higiene, disposto a vestir a camisa da empresa e trabalhar duro.
Por toda a Zona de Desenvolvimento de Lishui, jovens perambulavam em bandos, lendo os cartazes que as fábricas haviam afixado no feriado do Ano-Novo. Na feira de empregos da região, migrantes fitavam um painel digital com listas tão concisas que pareciam em código:
"Caixas, mulheres, 1,66 metro ou mais"
"Dispostos a vestir a camisa da empresa e a trabalhar duro, 25 a 45 yuans por dia, ensino médio"
"Homens, 35 yuans; mulheres, 25 yuans"
"Trabalhadores medíocres e nativos de Jiangxi e Sichuan não precisam candidatar-se"
Sem eufemismos, sem desculpas. Se uma empresa preferia que suas empregadas fossem altas, pedia mulheres altas. Se tinha preconceito contra uma região, azar de seus nativos. Em uma fábrica chamada Jinchao, o guarda despachava todos os candidatos vindos de Guinzhou, a província mais pobre da China. Quando perguntei a razão ao gerente, ele respondeu: "Por aqui, muitos delinqüentes são de Guinzhou". Na Yashun, o pai do Chefe Gao encarregava-se das contratações. Assisti a uma entrevista de emprego na qual ele perguntou a idade de uma candidata. A mulher replicou: "O senhor quer saber a minha idade verdadeira ou a da carteira de identidade?" Ela explicou que, sete anos antes, quando deixara a casa dos pais, falsificara a identidade porque era jovem demais. O homem ofereceu-lhe um emprego. Comentou comigo que uma mulher assim devia gostar mesmo de trabalhar.
Na China o salário mínimo varia entre as regiões. Em Lishui é de 40 centavos de dólar por hora. A Yashun oferecia empregos com a mais baixa remuneração, e mesmo assim choviam candidatos. Não havia escassez de mão-de-obra sem qualificação. O pai do Chefe Gao tinha uma pilha de argolas de sutiã em sua mesa para mostrar o que a fábrica produzia. No segundo dia, depois de finalmente preenchida a cobiçada lista dos operários, ele disse a uma candidata que o nome dela ficaria na lista de espera. "Troque meu nome com o de alguém", pediu ela. Ele recusou-se: "Não posso fazer isso. Já basta. Temos 19".
A mulher tinha cabelo cortado rente e olhos vivos. Pelo documento, tinha 17 anos. Ela inclinou-se em direção à mesa e mexeu nas argolas de sutiã, como se fossem peças de um jogo que ela estivesse decidida a vencer.
- Troque um nome - ela pediu, com insistência.
- Que diferença faz?- Não posso fazer isso.
- Eu teria vindo ontem se soubesse.
- Garanto que seu nome será o primeiro na lista de espera.
Veja, até escrevi 'boa moça' na frente do seu nome.
Mas ela não desistia. Por fim, depois de dez minutos de súplicas, ele acrescentou seu nome - mas aí a superstição de Wenzhou atacou. "Agora são ershi", disse ele. "Vinte. Soa mal essa palavra, parece esi, morrer de fome. Por isso vou ter de acrescentar mais um nome." A mulher agradeceu-lhe e dirigiu-se para a porta. "Mas, se o Chefe disser que 21 é demais, terá de ser 19", avisou ele. A mulher voltou até a mesa. "Ponha o meu nome mais para cima na lista", disse.
Cinco minutos depois, o nome dela estava bem no meio da lista. Quando a candidata saiu, o homem exclamou, admirado: "Essa moça sabe conseguir as coisas!" Perceberam depois que na verdade ela usara a carteira de identidade de sua irmã mais velha. Aquela moça que sabia conseguir as coisas mal completara 15 anos.
Até as fontes fazem música
Na primeira vez em que estive na fábrica, a rua em frente era de terra e a maioria dos outdoors da Zona de Desenvolvimento estava sem anúncio. Na minha segunda visita, seis semanas depois, a imobiliária Yintai pusera um anúncio num deles. A rua estava sendo pavimentada na minha terceira visita. Na quarta, vi uma mulher enfiar a roda dianteira esquerda de seu Honda num bueiro sem tampa. As tampas de bueiro estavam instaladas por ocasião da minha quinta visita. Uma clínica médica apareceu antes da sexta visita. Calçadas e iluminação de rua, na sétima. Árvores e pontos de ônibus, na oitava.
A produção industrial não espera pela infra-estrutura acabada, e a vida diária também não. Nas zonas de desenvolvimento chinesas, os canteiros de obra são um espaço público; por isso a rua da fábrica era cenário dos mais diversos entretenimentos improvisados. Uma semana, a tradicional trupe de ópera Wu montou um palco no meio da via. Tempos depois, foi a vez de um parque de diversões itinerante. Todo mês, o governo local estacionava um caminhão num cruzamento, abria uma tela branca e exibia dois longas-metragens de graça. Ali perto, uma imobiliária usou seu canteiro de obras para patrocinar o Concurso de Karaokê dos Operários do Som Harmonioso. Representantes das fábricas locais competiram, assistidos por mais de 12 mil operários. O vencedor foi um vigia de uma fábrica de roupas e edredons de plumas. Ele interpretou uma canção de amor popular, O Coração de uma Mulher.
Certa semana chegou à cidade a Trupe Acrobática e Artística Estrela Vermelha. Seu decrépito caminhão tinha painéis laterais que se abriam e revelavam um toldo com fotos de mulheres em trajes exíguos e slogans chamativos ("Paixão! Perfeição!"). A carroceria do caminhão convertia-se em bilheteria; atrás, montavam uma tenda. A entrada custava 60 centavos de dólar, e 160 ingressos foram vendidos - quase todos para homens. Membros da trupe cantavam e encenavam esquetes; um homem representava uma comovente história de um migrante preso por furto. Outro tirava o ombro da articulação e fazia contorcionismos no palco enquanto seu irmão passava o chapéu. No final, uma mulher fazia strip-tease.
Era tudo ilegal. Números de nudismo são proibidos na China comunista, e a trupe não era registrada. Nenhum deles tinha sequer uma carta de motorista. Eram uma família numerosa da província de Henan, e vinham chutados para o sul. Haviam sido expulsos, sucessivamente, de Nanjing, Hangzhou e Yongkang. Quando perguntei a Liu Changfu, o líder da trupe, por que incluíam nudez, ele disse: "Antes de comprar o ingresso, muitos costumam perguntar se temos algum 'entretenimento liberal'. Temos de poder dizer sim". A tarefa do strip-tease estava a cargo da esposa do primo mais distante. Liu me disse que eles tinham lucro contanto que vivessem em trânsito, e sempre havia outra zona de desenvolvimento em construção mais adiante.
Lishui dependia tanto quanto os artistas itinerantes dos canteiros de obras. As cidades chinesas não têm permissão para levantar recursos com títulos da dívida municipal ou elevação exagerada de impostos, e por isso recorrem à propriedade da terra. Legalmente, todas as terras pertencem à nação, mas os governos locais podem aprovar a venda de direitos de uso da terra - o que há de mais próximo à propriedade privada. As cidades adquirem as terras suburbanas dos camponeses a preços estipulados em níveis artificialmente baixos, aprovam-nas para desenvolvimento e as vendem com lucro no mercado aberto. A estimativa é de que entre 40% e 60% das receitas municipais em toda a China venham por esse meio.
Novos complexos de apartamentos estavam subindo por toda a Lishui, e um dos maiores era o condomínio Jiangbin. Os 6,6 hectares haviam pertencido ao vilarejo de Xiahe, mas em 2000 o governo municipal comprou os direitos de uso da terra por 1 milhão de dólares. Três anos depois, Lishui passou as terras para a imobiliária Yintai por 37 milhões de dólares. Como a corrupção é endêmica no ramo imobiliário chinês, o preço verdadeiro pode ter sido até maior.
Em um meio como esse, todos apostam no crescimento. A maior parte do vultoso investimento da cidade em infra-estrutura veio de empréstimos de bancos estatais, que também emprestaram às construtoras - a Yintai fizera um empréstimo de 28 milhões de dólares para seu empreendimento de Jiangbin. Se o mercado imobiliário esfriasse, todo o sistema emperraria; por isso recentemente o governo central instituíra novas leis para desacelerar essas expansões. Mas o dinheiro continuou a jorrar - nos últimos cinco anos, o preço médio de um apartamento em Lishui sextuplicou.
No papel isso parece insustentável, mas o ambiente econômico e social chinês não tem igual no mundo. As leis do ramo imobiliário são parciais ao governo, e a migração e a economia exportadora criam uma demanda constante por cidades em expansão. Depois dos tempos difíceis do século 20, o cidadão médio está disposto a tolerar injustiças contanto que seu padrão de vida melhore. Em Jiangbin, conheci Zhang Qiaoping, cuja família outrora cultivara um décimo de hectare no local. O governo pagou-lhe 15 000 dólares por um terreno que valia pelo menos 200 000. Zhang não gostou, mas também não protestou. Em vez disso, investiu numa pequena loja vizinha ao terreno. A maioria dos fregueses era operária da construção. O dinheiro que pingava para quem estava por baixo não era muito, mas Zhang conseguiu o suficiente para sustentar a família.Alguns camponeses até chegaram ao topo. Yintai é propriedade da família Ji, cujo patriarca fora agricultor antes de se ocupar de pequenos trabalhos de construção na década de 1980. Por fim ele entrou para o ramo imobiliário, e hoje seus três filhos ajudam a gerir a empresa. Conheci o caçula, Ji Shengjun, na boate que ele possui. Ladeado por seu guarda-costas, o homem de 26 anos bebia uísque escocês Matisse com chá verde e ouvia pacientemente os rogos de uma mocinha atraente. Ji usava calças Prada e camisa Versace, além de um relógio Piaget de 10 000 dólares. Contou-me que a Yintai esperava lucrar 19 milhões de dólares com Jiangbin. O complexo de apartamentos teria uma fonte musical maior que um campo de futebol. A mocinha implorava a Ji que a ajudasse a obter visto para ir a Portugal.
Criança em negociação
Boa parte da economia na China depende de camponeses que deixaram a terra, e essa dependência também existia na fábrica Yashun. O Chefe Wang e o Chefe Gao provêm de famílias de rizicultores. O Mecânico Luo nasceu numa plantação de algodão. Um ex-plantador de laranjas trabalhava na prensa de furar metais, e o químico cultivara chá, tabaco e amendoim. As mulheres da linha de montagem entendiam de trigo e soja. O contador vinha da região das pêras. Apesar das variadas ocupações rurais anteriores, agora todos se concentravam na produção de duas coisas: fios metálicos de armação e argolas de sutiã que pesavam meio grama.
Até os chefes se dispunham a trabalhar duro como camponeses, e passavam longas horas diárias no chão de fábrica. Cada um investira todas as economias no negócio - em dinheiro vivo. Só o Chefe Gao pedira um pequeno empréstimo a um banco. Não havia diretoria administrativa, cronograma de investimento, planejamento empresarial. Começaram a produzir sem um único cliente garantido. Em março e abril, o Chefe Wang visitara fábricas de montagem de sutiãs levando presentes: cigarros Chunghwa, álcool Wuliangye, peixes amarelos chamados corcorocas (apreciadíssimos em Wenzhou). Mas demoravam a chegar pedidos de potenciais clientes, e no verão a fábrica tinha mais de 1 milhão de argolas de sutiã em estoque. A maioria dos trabalhadores não-especializados foi dispensada, e o salário dos técnicos foi reduzido à metade.
Se de início os chefes agiram com notável rapidez, agora pagavam pela falta de planejamento. Essas fraquezas institucionais estão-se evidenciando mais nos negócios chineses por causa do ambiente de competição crescente. E a próxima etapa econômica desejada pela nação - produtos inovadores e a criação de marcas nacionais - exigirá mais criatividade e organização lógica.
Na Yashun, apenas o Chefe Gao cursara uma escola de comércio. O Mecânico Luo, o empregado mais importante, nem sequer concluíra o ensino elementar. Quando começara a trabalhar em período integral, aos 14 anos, era quase analfabeto, mas estudara à noite em Shenzhen. Cursos noturnos são comuns nas cidades chinesas de crescimento veloz, e Luo finalmente conseguiu seu diploma da escola secundária. Também adquiriu qualificações técnicas que lhe permitiram trabalhar com a Máquina, e ao longo dos anos fora aliciado três vezes por outras fábricas de argolas de sutiã. No processo, seu salário subira para 760 dólares mensais, remuneração alta na China. Como é comum na concorrência ruinosa da indústria chinesa, ele deixou cada um dos empregos sem aviso prévio. Simplesmente pediu alguns dias de férias, mudou o número do seu celular e nunca mais apareceu.
Quando a Yashun enfrentou dificuldades, os chefes reduziram à metade o salário do Mecânico Luo, e depois pararam de lhe pagar. Perversamente, isso refletia o valor desse empregado - ele era o único que entendia da Máquina. Durante crises, algumas fábricas chinesas pequenas param de pagar os salários, pois os empregados não partem enquanto lhes deverem dinheiro. A crise abateu-se em julho, quando a mulher do Mecânico Luo estava prestes a dar à luz. Ela morava na cidade natal de Luo, na província de Hubei, e ele me disse que seria seu segundo filho.
Os chefes não lhe deram licença para viajar. Em 27 de julho, o bebê nasceu de cesariana, e o Mecânico Luo declarou que precisava voltar de qualquer jeito para ajudar a esposa enquanto ela se recuperava da cirurgia. Finalmente concordaram, mas não quiseram pagar os salários atrasados. Naquela noite, quando levei Luo para comemorar com um jantar, as negociações ainda estavam em andamento. No final, os chefes pagaram-lhe um terço do que lhe deviam, e ele prometeu voltar em uma semana.
Depois, mãe e bebê viajaram 21 horas de ônibus até Lishui. Dividiam o quarto no alojamento da fábrica com o Mecânico Luo, que me apresentou o filho, todo orgulhoso. Perguntei como estava passando o irmão do bebê. Presumi que ele ficara no vilarejo com os avós. Mas vi consternação no rosto do homem e temi que algo terrível houvesse acontecido. "Este é nosso primeiro filho, na verdade", disse, baixando a voz. "Quando o Chefe Wang e o Chefe Gao me contrataram, falei que já tinha um filho para poder pedir salário maior. Para você, eu não queria mentir, mas eles estavam presentes quando conversamos."
Passados dois meses, a mulher levou o bebê de volta à sua província natal, Guizhou. Na estação do trem em Guiyang, duas mulheres aproximaram-se dela e ofereceram-lhe carona. Levaram-na até uma minivan, onde havia dois homens. Ao saírem da cidade, ela notou um cheiro forte de produto químico e sentiu-se desorientada. A próxima coisa de que se lembra é de ter sido roubada: 120 dólares em dinheiro, seu celular e seus brincos. Depois disso, o bebê ficou anormalmente sonolento, e a mãe telefonou em pânico para o Mecânico Luo. Ele dissera-lhe para dar banho na criança imediatamente. Felizmente, desde então, o bebê parece sadio. Ainda não completara 4 meses e já vivera numa fábrica, servira de peão em negociações salariais, fora drogado e assaltado. O Mecânico Luo dera-lhe o nome de Wen, "culto", pois sonhava ver o filho tornar-se um homem instruído.
Diferença de 3 dólares
A garota de 15 anos contratada pela fábrica abandonara os estudos depois da sétima série porque sua família precisava de dinheiro. Ninguém na fábrica parecia incomodar-se por ela ter usado o nome da irmã mais velha. Na China, onde a idade mínima legal para trabalhar é 16 anos, é comum trabalhadores registrarem-se com documento falso. A irmã acabou indo trabalhar lá também, assim como o pai. O sobrenome deles era Tao, e haviam migrado da província de Anhui. Em contraste com a maioria dos empregados, não moravam no alojamento, e sim num quarto alugado perto da fábrica. Nos meses de verão, a fábrica beirou a falência, os Tao raras vezes foram chamados para trabalhar. Mas por fim a corte feita pelo Chefe Wang aos clientes começou a compensar. Em agosto, a fábrica tinha cinco compradores constantes. Em setembro, 11 meses depois de a fábrica ter sido projetada, obteve seu primeiro lucro mensal. Em outubro, os negócios estavam de vento em popa, e os Tao trabalhavam longas horas diárias.
A irmã mais velha classificava argolas na linha de montagem da Máquina, e a de 15 anos, Yufeng, manejava os fios metálicos. Punha os fios curvos numa espiral que era mandada para um aquecedor industrial. Era trabalho pago por peça, e em um dia produtivo Yufeng podia acabar 30 mil fios, recebendo 7,50 dólares. Ela era rápida, confiável e segura de si. Enfrentava o Chefe Wang como ninguém. Uma noite, quando uma colega comemorou seu 16o aniversário, Yufeng usou a ocasião para forçar seu supervisor a beber. Ela ia tomando Sprite e incitando o homem a entornar cerveja Double Deer, aos gritos de: "Beba! Beba!" Pediu a mim e aos outros homens à mesa: "Brindem a ele! Quero que fique bêbado, assim não precisarei trabalhar duro amanhã!"
A exemplo da irmã, Yufeng entregava aos pais tudo o que ganhava. Seu sonho era um dia abrir uma fábrica de calçados. Disse-me que, se fosse bem-sucedida, construiria uma casa de três andares no vilarejo de seus avós. Quando lhe perguntei sobre os avós, ela ficou de olhos marejados. Não perguntei mais.
Em novembro, a Máquina estava produzindo 100 mil argolas por dia, e os chefes haviam instalado uma linha de montagem maior para os fios metálicos internos. Porém, como todos em Lishui, eles haviam apostado no crescimento rápido, e esperavam aumentar a força de trabalho para 60 empregados no fim do primeiro ano. Só tinham 20 por enquanto, e o prédio era três vezes maior que o necessário. "Ainda é muito cedo", Wang resmungou quando perguntei sobre o desenvolvimento de Lishui. "Toda a vez que precisamos de alguma peça ou de qualquer coisa para a Máquina, temos de ir até Wenzhou."
Naquele mês os chefes decidiram transferir a fábrica. Resolveram de supetão, sem consultar o Mecânico Luo ou qualquer outro. Gao encontrou dois prédios disponíveis nos pântanos ao norte de Wenzhou. Foram consultar o especialista em feng shui. Seu conselho foi inequívoco: 28 de novembro era também o oitavo dia do mês lunar, e não há nada melhor que dois números 8. A maioria dos empregados decidiu mudar junto com a fábrica. Mas para os Tao a situação se complicou. A mãe tinha uma pequena mercearia nas proximidades, e o filho mais novo cursava uma escola secundária local. Se o pai e as filhas mantivessem seus empregos, a família dividiria-se. Na fábrica, a decisão virou assunto de debates diários.- Você, a esta altura, já deveria ser independente - disse o Mecânico Luo a Yufeng durante um almoço.
- Você não tem conta em banco, tem?
- Não - respondeu ela.
- Ainda entrego todo o meu dinheiro aos meus pais. Eles precisam da minha ajuda.
- Ajudará mais se você for independente.
Depois caçoou dela, dizendo que saíra de casa com apenas 6 dólares no bolso quando garoto. Pelo modo como falava, parecia que Yufeng era apenas mais uma dessas meninas superprotegidas que trabalham 50 horas por semana numa linha de montagem. Mas o pai não quis deixar a decisão para as filhas. Fez pé firme e disse que partiriam juntos - mas só se o salário fosse negociado.
Na noite da véspera da mudança, os chefes finalmente ofereceram um aumento. O pai pediu mais; os chefes relutaram. Ninguém queria conversar face a face; por isso o Mecânico Luo levava as mensagens de um ao outro. Às 8 horas ele foi ao quarto de paredes de barro dos Tao. As moças saíram; os homens acenderam cigarros West Lake. O pai disse: "Não estou disposto a mudar se eles não fizerem valer a pena". "Eu sei", replicou o Mecânico Luo. "Eu também não estou com disposição para treinar novos empregados." A mãe opinou: "Talvez seja melhor mandá-las trabalhar numa fábrica de calçados."
Ele exigiu o mesmo salário para todos: 127 dólares garantidos por mês mais as horas extras e 6 dólares de ajuda de custo. O Mecânico Luo levou o recado aos chefes, que cortaram a ajuda de custo pela metade, uma diferença de 3 dólares. O pai não deu resposta, e a oferta continuava na mesa quando a noite terminou.
Um bom futuro à espera
Naquele outono, Lishuy solicitou o acréscimo de 35 quilômetros quadrados para a Zona de Desenvolvimento. O progresso era a nova realidade. A expansão demandaria um investimento de quase 900 milhões de dólares, a maior parte proveniente de empréstimos bancários. Planejavam dobrar a população da cidade até 2020. Para atender à crescente demanda por energia, estava sendo construída a represa de Tankeng, nas montanhas ao sul de Lishui. Por isso, 50 mil pessoas estavam sendo realocadas de dez cidades e 80 vilarejos. Assisti à evacuação final de Beishan, a maior cidade, em 25 de outubro de 2005 - data auspiciosa, segundo os especialistas em feng shui. Havia dias propícios para tudo, até para abandonar a cidade natal. As famílias abarrotaram caminhões basculantes com sua mobília e os descarregaram em oito novas comunidades ainda em construção. Em Youzhou, Chen Quiaomei contou-me que tivera dificuldade para encontrar seu apartamento, ainda sem janelas. "Parecem todos iguais!", reclamou ela.
Quando conversei com o diretor Wang sobre os planos de expandir a zona fabril de Lishui, ele admitiu que estava cada vez mais difícil obter aprovação para projetos assim. O governo central receava uma bolha no mercado imobiliário, mas ele, Wang, continuava confiante. "Estamos propondo uma área de desenvolvimento onde a terra não é boa para a agricultura", explicou.
Na parede de seu escritório havia um mapa da expansão proposta: futuras estradas, quarteirões industriais, rede de água. "Teremos de remover mais de 400 montanhas e montes", disse ele. Convidou-me a voltar em janeiro, quando seu filho estaria em casa, de férias. O filho daquele ex-condutor de tanque estava na Universidade de Auckland, estudando finanças internacionais.
Fantasmas da fábrica
Transferiram a fábrica de argolas de sutiã em um dia. Os chefes alugaram uma empilhadeira, quatro caminhões basculantes e sete homens. O Mecânico Luo desmontou a Máquina em três partes. As argolas de sutiã acabadas foram empacotadas em 94 caixas. Removeram tudo o que tinha algum valor, incluindo o carpete e as lâmpadas. Um ano antes, haviam encomendado portas de 10 dólares, e agora as tiravam dos gonzos.
Às 3 horas, as irmãs Tao chegaram de malas prontas. O pai tinha encontrado um emprego mais bem pago em uma fábrica próxima, que produzia couro sintético. Arranjara o trabalho dias antes, em segredo. Sua insistência em ficar com as filhas fora uma manobra da negociação. Não houve lágrimas no portão da fábrica. A última coisa que o pai disse foi: "Vocês precisam se agasalhar. Vai esfriar e, se não tiverem cuidado, vocês vão adoecer, terão de gastar dinheiro com remédios. Por isso, se agasalhem, ok? Adeus".
Dois dias depois, fui à Zona de Desenvolvimento, passando por fileiras de outdoors prontos: Amway, Estruturas de Aço Haishun, Ganchos de Aço Fengchang. A ex-fábrica Yashun estava destrancada. Lá dentro, argolas de sutiã juncavam o chão, entortadas, sujas, quebradas. Havia maços de cigarro amassados, rolos de fita adesiva usados. Um saco vazio de fraldas descartáveis. Um calendário de parede congelado em 22 de novembro. Um amuleto de boa sorte com o rosto de Mao Tsé-tung de um lado e um bodhisattva do outro. E em todo o alojamento, nas paredes brancas de gesso, as inscrições acumuladas por meses. Ao lado de sua cama, um operário listara números de combinações vencedoras de loteria. Outro escrevera: "Encontre o sucesso imediatamente". Outros grafitaram: "Reflita sobre o passado, leve em conta o futuro"; "Seja feliz a cada dia! Um novo dia começa a partir de agora!"; "Enfrente o futuro de peito aberto!"; "É possível ter sucesso em qualquer lugar. Juro que não voltarei para minha terra enquanto não for famoso".
Um vento frio batia nas janelas. Lá fora, era possível ouvir as fábricas vizinhas - o estrépito da produção de vidro, o estertor de moldes de plástico, o silvo pneumático da produção de aquecedores de água. Mas não havia nem um único som humano, apenas as vozes silenciosas nas paredes da fábrica abandonada.
Can Dialectics Break Bricks?
sábado, 16 de junho de 2007
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notas sobre a produção de teorias urbanas quaisquer
sobre fazer teoria
.Como se conhece
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usar a palavra-chave dada a partir dos seguintes textos como ponto de partida para produção de um construto
01. Kitchen Stories [direção: Bent Hammer] + ABALOS, I. O que é Paisagem = paisagens íntimas
02. KOOLHAAS, R. Cidade Genérica + KOOLHAAS, Rem. Vida na Metrópole ou a Cultura da Congestão = fantasias genéricas / congestão genérica
03. TSCHUMI, B. O Prazer da Arquitetura IN: NESBIT, K. Uma Nova Agenda para a Arquitetura = funcional / inutilidade
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05. MAAS, W. FARMAX = leveza
06. NEGRI, A, HARDT, M. Multidão = maria de fátima
07. FLUSSER, V. Design: Obstáculo para a remoção de Obstáculos IN: _______. O Mundo Codificado = reciclagem / sofá
08. GANZ, Louise. Lotes Vagos na Cidade: Proposições para Uso Livre IN: ____ SILVA, B. Lotes Vagos = beleza
09. CRIMP, Douglas. Isto não é um Museu IN: _________. Sobre as Ruínas do Museu = coleção de museu / admiração imparcial
10. WEIZMAN, Eyal. Desruição Inteligente IN: v.v.a.a. 27a Bienal de Arte de São Paulo. Como Viver Junto = infestação / desparedamento
11. Koolhaas Houselife = funcionalidade
12. CORTEZAO, Simone. Paisagens Engarrafadas = paisagismo marcado
13. BRANDAO, Luis Alberto. Mapa Volátil. Imaginário Espacial: Paul Auster IN: _______. Grafias de Identidade. Literatura Contemporânea e Imaginário Nacional = andarilho
14. CANUTO, Frederico. Notas Sobre Ecologias Espaciais = ecossistemas
15. SANTANA, P. A Mercadoria Verde: A natureza = fotografias verdes
16. Central da Periferia = calypso amazônico / brega
17. BECKER, B. Amazônia: mudanças Estruturais e Urbanização IN: GONCALVES, M.F. et al. Regiões e Cidades. Cidades nas Regiões = fotografias verdes
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20. WISNIK, Guilherme. Estado Crítico =
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-outras imagens podem ser colocadas, porém devem ser relacionadas ao conteúdo da aula;
-um texto como o resumo da aula, podendo ou não conter colocações do aluno-autor;
-biografia dos autores citados em sala de aula [pesquisar no curriculo lattes, wikipedia e outros sites]. Na biografia dos autores citados deve, necessariamente, conter os trabalhos mais relevantes, bem como vínculo a escolas de pensamento;
-indicações de sites relacionados aos assuntos trabalhados em sala [mínimo de 05 links];
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[a]02 - 1osem2007
Apresentações
Grupo A: Apresentação para a sala de aula dos seguintes temas:[SURREALISMO]+[DADAISMO]+[FLUXUS], segundo os seguintes critérios mínimos:
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Grupo B: Apresentação para a sala dos seguintes temas: [KOOLHAAS01 – Delirous New York+SMLXL]+
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