[geziel]

“ ...Considero a pintura um meio de expressão e não um fim. Um meio de expressão entre outros e não um fim destinado a preencher uma vida. E é assim que a cor é apenas um meio de expressão e não o fim da pintura. Noutros termos, a pintura não deve ser exclusivamente visual ou retiniana. Ela deve interessar-se também pela matéria cinzenta, o nosso apetite de compreensão. É por isto que, por exemplo, jogo ao xadrez. Em si mesmo, o jogo de xadrez é um passatempo, um jogo que toda a gente pode jogar. Mas levei-o a sério e isso agradou-me porque encontrei pontos de semelhança entre a pintura e o xadrez. Com efeito, quando se joga ao xadrez é como esboçar alguma coisa, ou como construir a mecânica que fará perder ou ganhar. O lado competitivo do empreendimento não tem nenhuma importância, mas o jogo em si mesmo é muito, muito plástico e provavelmente foi isto que me atraiu” ... – Marcel Duchamp – França (Blainville-Crevon) 28 de Julho em 1887 – (Neuilly-sur-Seine) 2 de outubro de 1968.
Com as próprias palavras de Marcel Duchamp inicio, e pretendo expandir este trabalho me apropriando de imagens, comentários alheios e daqueles que mesmo de maneira simples possam expressar meus pensamentos a respeito de Duchamp.
Sua postura é algo inigualável, pois se trata de uma pessoa que não se preocupava com aquilo que diziam de si, mas se importava em fazer o que o emocionava; para ele a vida entorno do fazer a obra deve ser minimamente divertida, para ser percebida nos momentos de distração. “Se não há diversão é arte, portanto ele não a faz, e por isso não se considera artista”.
Se considerarmos a anti-arte característica essencial do Dadaísmo, Duchamp é um Dadaísta por excelência.
Ele é o responsável pelo conceito de ready made, a saber, o transporte de um elemento da vida cotidiana, a priori não reconhecido como artístico, para o campo das artes. Os ready made passaram, então, a ser o elemento de destaque da produção de Duchamp. Entre os mais famosos, podemos citar a obra L.H.O.O.Q. (sigla que, lida em francês, assemelha-se ao som da frase "Elle a chaud au cul", que, traduzida para o português, significa "Ela tem fogo no rabo"), que nada mais é do que uma reprodução do célebre quadro de Leonardo Da Vinci, Mona Lisa, acrescida de bigodes e barba. Quando abandona a pintura e rompe com o conceito de arte, considera que o gosto estético é fruto de mero hábito e busca outros modos de expressão – os Ready-Made, manifestações muito radicais – é uma delas; o outro “O Grande Vidro”, construído com procedimentos científicos (cálculos matemáticos). Nesses casos está implícito também o propósito de chocar o espectador; por isso afirma que: “será arte tudo o que eu disser que é arte”.
Portanto todo o acervo que nos foi legado pelo passado só é considerado arte porque alguém assim o disse. Duchamp corria atrás de experiências novas, talvez por isso tenha abandonado a pintura de cavaletes – ela tornara um hábito – abandonou o grande vidro, pois se habituara a ele; deixara de ser experiência nova, pois para ele ser artista não é produzir pinturas ou esculturas usando uma técnica dominante e sim revelar o novo, o inesperado, o incomum. Por isso em vez de tela, um painel de vidro; em vez de tintas, matérias pictóricas; e ainda outros recursos tecnológicos. Ele cria um tipo de arte diferente da já existente, a arte da diversão e estética da vida no mundo. “Quando assina suas obras com pseudônimos, Duchamp se desloca de sua própria imagem, criando novos personagens artistas, que no fim são outras pessoas, com nomes e características específicas, sem nenhum sentido subjetivo ou interpretativo para aqueles que os vêem, mas totalmente objetivos para ele”. Depois de O Grande Vidro, Duchamp dedicou-se principalmente ao jogo de xadrez. Permitiu, inclusive, que o fotografassem durante uma partida com uma mulher, aparentemente nua. Na foto, Duchamp está curvado sobre o tabuleiro, concentrado no jogo, assim como sua adversária. A imagem parece reforçar a questão: Se pretendermos assumir o alcance cultural da arquitetura, não podemos nos distrair com os encantos do adversário. Mas, se não nos encantarmos, é possível realizar um grande jogo?
JOGOEm 1963, Marcel Duchamp jogou uma partida de xadrez com uma jovem nua de 20 anos; Julian Wasser fotografou Um dia, em Paris, o artista Naum Gabo perguntou-lhe diretamente por que havia deixado de pintar: “O que você queria que eu fizesse?”, respondeu Duchamp abrindo os braços. “Acabaram-se as minhas idéias”.
Vale a pena ressaltar que a obra de Duchamp deixou um legado importante para as experimentações artísticas subseqüentes, tais como o Dadaísmo, o Surrealismo, o Expressionismo Abstrato, a Arte Conceitual, entre outros. Muitos dos artistas identificados com essas tendências prestaram tributo a Duchamp, quando não o conheceram de fato, tendo com ele um contato direto (ou, às vezes, íntimo), o que influenciou as suas respectivas obras. John Cage, por exemplo, trocou idéias com Duchamp, e André Breton, pai do Surrealismo, por várias vezes tentou atrair Duchamp para a causa do movimento surrealista; Tristan Tzara, um dos responsáveis pelo Dadaísmo, também reconheceu na obra de Duchamp, apesar do pouco contato da arte norte-americana com a arte européia, uma espécie de precursora.
Conclusão
Usando o próprio vocabulário do jogo de xadrez, Affonso Romano de Sant'Anna ¹, afirma:
“Marcel Duchamp deu um xeque-mate na arte há quase cem anos. Desde então ela ficou paralisada, prisioneira, dependente de uma solução que teria que passar pela desconstrução do impasse que criou. Duchamp encurralou o conceito de arte da época ao convencer seu auditório, que tudo era arte, desde que alguém assim o quisesse, desde que o artista apusesse em qualquer objeto, modificado ou não, sua assinatura. No instante em que, atônitos, seus interlocutores e, depois, as gerações vindouras, caíram neste jogo, a arte, como o Rei, ficou imobilizada, pois se tudo é arte, nada é arte.”.
Mesmo não admitindo, Duchamp é o artista que mais radicalmente redefiniu o fazer artístico desde Leonardo da Vinci.
Sem ideologia ou moral, descrente dos grandes gestos ou das grandes causas, sua estética foi essencialmente ética. Antes de tudo, viveu e criou em nome da liberdade. Recusou todos os compromissos, da família à profissão, em nome da integridade e da coerência de sua obra e de sua vida.
Tal qual o jogo de xadrez – grande paixão de Duchamp e que se reflete na criação do artista – cada lance espera a resposta do espectador. É o desejo inflamado e estratégico de produzir, agir de forma objetiva e na hora certa, para dar o “xeque-mate” final, que é o prazer de incomodar, aguçar, provocar um interagir obra/observador; despertar as ilimitadas possibilidades de se praticar a arte...
Portanto, pode-se dizer que, aqueles que quiserem fazer parte de seu “Jogo de Xadrez”, aprender as estratégias, interessar-se pelo mecanismo da arte (do engenheiro do tempo perdido) propondo mudanças para aquilo que se pensava imutável; quebrar dogmas, paradigmas, preconceitos (ready made) e superar barreiras até mesmo do tempo com relação à arte, têm em Duchamp, não receitas, mas exemplo de disposição para promover mudanças que podem, como aconteceu, marcar época e produzir ao mundo um novo conceito nas atitudes que se pode corroborar.
Procura-se por Duchamp’s que queiram assumir tal postura...
Bibliografia
http://escritaemword.blogspot.com/2007/06/marcel-duchamp-jogador-de-xadrez-1911.html
http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/2007/02/perguntar-ofende-4.html
http://www.arquitetonica.com/editorial2.html
http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.moma.org/images/collection/FullSizes/82583003.jpg&imgrefurl=http://www.moma.org/collection/browse_results.php%3Fcriteria%3DO%253AAD%253AE%253A8312%26page_number%3D2%26template_id%3D1%26sort_order%3D1&h=450&w=360&sz=16&hl=pt-BR&start=15&tbnid=cbN05saBmpVaQM:&tbnh=127&tbnw=102&prev=/images%3Fq%3DAndr%25C3%25A9%2BBreton,%2B...%26gbv%3D2%26svnum%3D10%26hl%3Dpt-BR
http://www.niteroiartes.com.br/cursos/la_e_ca/duchamp.html (Engenheiro do tempo perdido)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Marcel_Duchamp
http://www.releituras.com/arsant_bio.asp (1)
http://pontoscegos.blogspot.com/2007_04_01_archive.html
http://www.niteroiartes.com.br/cursos/la_e_ca/modulos2.html
http://www.eca.usp.br/nucleos/nce/cristina/duchamp.html
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